Wednesday, December 28, 2016

O grito eterno



Estava lendo uma entrevista com Madonna em que ela diz que sei pai nunca comenta sobre o fato de ela ter se tornado cantora e famosa etc.

Para a nossa família há um certo status que demora para mudar, que talvez não mude mesmo com a mídia ou respostas e circunstâncias externas.

Mas um pouco eu acho que essa imagem balança.

Eu agora estou cheia de segredos.

As coisas estão acontecendo mas ninguém sabe muito bem como as coisas estão acontecendo.

E eu estou mudando de tamanho.

Eu sei que esse é o meu espaço e a minha escrita mas eu estou mudando de tamanho.

Percebi isso hoje quando consegui não aceitar duas ideias da minha mãe. Não foram duas ideias rebuscadas e complexas, apenas duas ideias erradas que eu sei que estavam erradas e que eu consegui refutar. Minha irmã não tinha pego o caderno da minha mãe que ela estava procurando. Eu sabia disso. Eu sei que a gente perde uma coisa e acusa outra pessoa só para ficar mais fácil. Um bode expiatório que agora colocou nossos óculos em algum lugar. Um duende. Nem que seja um bode expiatório tão pequeno quanto um duende.

A outra ideia que refutei foi sobre uma coisa ruim que não tinha acontecido. Eu sei que a amiga da minha mãe chegou bem em casa. Embora ela estivesse armando aquele pequeno circo do terror ao redor de hipóteses de fulana não me respondeu, eu vou ligar, enquanto eu dizia espera um pouco, ou liga de novo, até que a amiga finalmente depois de mais dez segundos respondeu e tudo se resolveu.

Esses medos que me assombraram a vida, os medos da minha mãe, eles não são os meus. Temos medos em comum mas há muitos medos diferentes. E alguns não são meus e eu estou devolvendo delicadamente.

Os temas da minha escrita são o mal e a existência de Deus. Temas derivados disso são a arte como um caminho para não enlouquecer...talvez...a escrita como remédio, auto-conhecimento...e finalmente o aprendizado da alegria para que eu chegue na religião e de novo em Deus.

Então é isso. E me passou na cabeça hoje escrever sobre arte e literatura, mas também me passou pela cabeça que preciso fazer meu livro.

E também pensei que não posso deixar escapar o quanto eu procurei a Deus, o quanto Ele me chamou ou esteve por perto.

Simplesmente essas são as melhores histórias, as histórias de amor por homens ridículos e as histórias de amor por Deus.

Ok, e meu terapeuta mandou dizer, e as minhas histórias de amor por mim mas isso é muito brega.


Estou sentindo as coisas dentro de mim mudando de tamanho. Sinto a alegria tomando conta do silêncio.

Não posso dizer mais nada.








Monday, December 19, 2016

A última carta de amor que escrevi




Sete e pouco da noite, na universidade, dentro da livraria.

Esta é a minha primeira carta para você, porque estou um pouco feliz com a folha em branco que estou deixando escrita agora e que você começou a perturbar com o seu jeito discreto de quem não quer incomodar mas quer aprender um pouco com os papéis que encontrar nas minhas gavetas e ontem eu estava pesando sobre como é bom ser conhecida por alguém que está chegando na minha vida sem pressa e sem o desinteresse daqueles cachorros gordos de suas próprias certezas que perderam o melhor dos cachorros,a febre alegre e divertida do amor fiel que se deslumbra com qualquer notícia que venha dos lábios de uma pessoa amada quando ela ainda não pisou no centro do palco mas cantando da cochia já estraçalha o nosso coração inteiro.

O nosso coração inteiro vai estar presente em nosso encontro de xícaras em uma das livrarias que também é a sua preferida nessa feliz coincidência que você ressaltou e que fez carinho no meu ouvido.

Todo o universo em seu equilíbrio de mistério e todos os deuses mais extravagantes e os deuses mais tranquilos se juntaram para equilibrar nossos nomes nesse móbile frágil que é um presente e está se desenhando como um futuro, eu espero, doce como grãos de açúcar e delicado como as folhas de uma tulipa que acabou de florir em alguma montanha.

Se você não gostar da alma de uma pessoa, não vai poder amar e suportar as suas meias e aquela sandália havaiana que você odeia.

Uma vez um namorado meu descobriu que eu não gostava de uma camiseta dele e nunca mais usou, pior, fez dessa camiseta um pano de chão. Eu acho essas coisas erradas tão certas. Eu não trouxe o telefone e estou louca para saber se você gostou dos meus textos e se você vai me amar mesmo quando eu estiver com mau humor de fome ou menstruação.

Eu só queria que os seus olhos fossem mesmo castanhos e que você conheça uma parte de mim que me assusta, que é tão bonita e tão elétrica quanto um filhote de coelho ou um diamante de fogo.

Eu estou querendo te beijar e me aproximo de você com uma timidez que reúne, como diz o Borges, todas as minhas idades, todas as minhas súplicas, as noites de abraçar travesseiro, e de não saber qual será o sabor do seu nome na minha boca quando ele já tiver sido repetido muitas vezes e continuar tranquilo como praia, macio como uma janela penteando meu cabelo com o vento de um dia em que eu acordo feliz feito criança, menina das meninas, reinando no castelo que é a nossa companhia.

Entre narcisistas e melancólicos





Sunshine and champagne, Jack Vettriano


Se você quer ser um homem interessante, seja um homem normal, discretamente alegre. Seja macio(não faça academia) e doce (carinhoso de alma), mas não seja narcisista ou melancólico. Já temos homens chatos demais por aí.

Nesses tempos infelizmente eu caí no bom e velho erro de sair com pessoas não tão interessantes assim, mas quem sabe amáveis. Eu não tenho mais idade para esse tipo de cara que se acha o máximo nem para esse tipo de cara que tem uma vibração tão baixa que se você abrir o guarda-roupa dele só vai ter um monte de roupa sem cor, azul marinho, meio suja. Ah pelo amor de Deus. Faz essa barba.

É tão broxante a pessoa ser narcisista. Mas claro que ela não percebe isso, para o senhor Campeão de Tudo eu é que estou diante do imenso privilégio de estar na presença de um integrante da realeza humana. E para o melancólico, estou tendo o privilégio de ouvir suas sagradas lamúrias. Um diz que já viu de tudo e já sabe de tudo mais do que eu e o outro diz que já fez terapia e me deixa muito tentada a perguntar por que então ele ainda não é feliz. Falta de Deus?

Narcisismo, melancolia, é tudo uma grande falta de charme, de experiência e de curiosidade, e é tudo falta de Deus.

Deus dissolve a ilusão do quanto somos interessantes, Deus nos deixa ridículos e necessitados, gratos e contentes.

Não tem nada a ver com a energia de te avaliar como se você fosse uma candidata do Bachelor ou uma mulher a ser vencida em um debate.

É estranho porque eu já não sei se é pecado tentar amar pessoas que são desinteressantes a ponto de me agredir emocionalmente com essas doses cavalares de vaidade e depressão.

Será que é pecado insistir nesses encontros?

Será que é possível amar essas pessoas a distância?

Amar a distância, como quem ama um animal machucado do zoológico, alguém que tem uma voz irritante e trabalha na mesma sala que você. Uma criatura que nunca vai me enxergar, que nunca vai me entender, e que vai se desinteressar por mim depois de uma, duas ou três experiências de quebra de expectativa, ou depois de ser confrontado em uma conversa. Essas pessoas que não me encantam, é preciso amá-las?

Mas se é preciso amá-las, pode ser de longe?

É justo dizer para esses caras, olha, eu estou tentando te amar mas você não está me ajudando?

O povo da igreja com certeza diria que não, que esse não é o caminho. Mas e se a igreja fosse cheia de papisas velhas e divertidas, o que elas diriam sobre essa dificuldade de amar homens desinteressantes?




Desde que eu saí de São Paulo



Her secret life, Jack Vettriano


Eu nunca gostei de São Paulo. Eu sempre gostei das pessoas que moram em São Paulo. Nunca foi a cidade. Nunca foi um lugar que eu senti que gostava de mim e que me acolheu. Sempre foi um lugar feio onde eu fui muito triste e muito feliz. E também nunca fui como os meus amigos paulistas que chegam da praia dizendo "que saudade da poluição".

Mas desde que eu saí de São Paulo as conversas mudaram. São Paulo doa a quem doer é um lugar onde as pessoas conversam e são suficientemente contemplativas.

No Rio, se você tirar a praia, não existe isso. Não existe contemplação. É muito calor, é muito tiro, não é uma cidade onde alguém pode sair despreocupadamente na rua e ficar quieto sem que apareça alguém e dê um palpite na sua vida, sem que você tropece ou passe raiva.

Um dia eu fui beber uma cerveja sozinha e levei um livro para estudar. Era de tarde, uma parte tranquila da cidade pelo menos naquele horário. Um homem sujo e barrigudo passou por mim gritando "Olha foi assim que eu criei essa barriga, cervejinha à tarde". Paralisei meio de ódio meio com preguiça de responder. Para essas horas, só uma arma funciona.

Mas é isso. Nâo é um lugar contemplativo. E isso faz falta. Quase todas as calçadas fedem a mijo e são desniveladas, é sempre perigoso, e sempre tem alguém querendo saber da sua vida. Um dia eu estava de sutien na sala e o pessoal da favela da frente jogou um raio laser verde lá dentro da sala só para avisar que estavam se divertindo. Você não tem um segundo de privacidade. Não existe privacidade. A proprietária da pensão onde eu estou morando me mandou um whatsapp quando me escutou chorando no quarto.

Você vai tomar um simples chopp e pergunta se tem alguma cerveja Ale no cardápio. Depois de perguntar pela terceira cerveja ale, o garçom te diz assim, com ares confessionais de um poeta "olha eu vou ser sincero com você, nós vamos tirar esse cardápio em breve". O que é equiavalente a ter dito assim, "nada do que tem aí é verdade".

Eu fui cortar o cabelo e escuto um cabeleireiro contar que uma mulher foi lá, fez o cabelo, depois deixou a bolsa e saiu para comprar um sanduíche e nunca mais voltou. A todo e qualquer momento você cai em um golpe ou escuta falar de um golpe. Daí você aprende que fora de São Paulo as coisas têm a sua própria lei e essa lei é te enganar. Apenas isso.

Uma vez eu tentei reagir e ir até o fim, tentei ligar para todos os números possíveis para denunciar um motorista que não parava no ponto. Eu estava enfurecida porque era o ônibus que vai para a rodoviária e eu tenho um problema de coluna e não podia ficar muito tempo com a mochila nas costas esperando o ônibus. Quando finalmente algum dos ônibus que vão para a rodoviária parou para mim e eu reclamei, o motorista disse "eu sou o único que pára." Quer dizer, aquele era o ponto, mas ele é o único que pára no ponto. Porque aquele ponto tem uma certa propensão para ficar cheio de ônibus então ninguém se dá ao trabalho.

Em um dos meus primeiros almoços em buteco, minha amiga vegetariana pediu uma omelete e explicou que era vegetariana. A omelete veio cheia, coberta, alegremente infestada de pedacinhos quadradinhos de presunto. Na hora de pagar, perguntei se o cara não podia dar um desconto. A resposta dele foi simplesmente francesa, uma bela de uma bufada na minha cara.

Mas eu me perdi. Eu ia escrever sobre a falta de contemplação, de praças, de sombras, de silêncio e acabei escrevendo sobre a corrupção que se infiltra no dia a dia.

Hoje está muito quente aqui no Rio de Janeiro. E eu sinto falta das longas conversas com amigos de outros lugares.








Thursday, September 15, 2016

Um amigo que começou a meditar



A coisa mais legal que aconteceu nesses últimos tempos foi reencontrar um amigo meu que está muito mais feliz.

Há dez anos atrás, a gente tirava sarro porque ele ia na padaria de carro.

Eu e meu namorado da época, aliás, ríamos das pessoas estúpidas no trânsito. "Barrigas nervosas atrás de um volante"- ele dizia.

Mas enfim, esse amigo começou a meditar.

E de repente ele está mais leve e tranquilo e feliz e bem humorado. E está tudo mais doce. E ele não tem mais que encher a cara por causa de timidez, se esconder, ficar calado e nervoso.

Foi uma coisa que me deixou muito feliz. Na época em que a gente se conheceu ele era super católico e eu tinha acabado de descobrir o cristianismo e estava super impactada e triste por não ter descoberto tanta coisa antes.

Mas eu meditava e estava começando a estudar tarô. E a meditação ia começar a mudar a minha vida.

Hoje eu estou super envolvida com cristianismo e ele está meditando. Parece que nós trocamos e combinamos de um fazer o que o outro gostava sem saber.

No final da conversa ele me convidou para ir ao centro que ele vai e disse que depois ia na missa comigo.

Cara, isso derreteu o meu coração.

Quando alguém melhora de verdade e você sabe que a pessoa mudou, dá um sentimento muito bom, um gosto pela vida.



Sinais



Outro dia eu lembrei dessa história e sorri.

Eu estava na véspera de uma prova importante, uma das provas mais importantes da minha vida. Eu tinha estudado muito sozinha.

De repente meu celular tocou e eu recebi uma mensagem de um amigo dizendo que tinha sonhado comigo.

No sonho, eu recomendava um filme para ele assistir, dizendo "assiste esse filme, é muito bom".

O nome do filme era "A Rainha Vitória."

Depois dessa mensagem eu soube que eu tinha passado na prova.

E no final eu passei mesmo. Foi mó legal.

Problemas com autoridade



Fazia muito tempo que eu não levava uma bronca.

E eu sou super orgulhosa e perfeccionista, eu sou do tipo que faz o trabalho muito bem feito, do tipo que nunca é demitida, eu aviso que vou sair do trabalho e entristeço os chefes. Eu já cheguei a levar bronca por me demitir. E como professora eu sou levemente inesquecível.

Mas nessa semana eu levei uma bronca, aliás, duas, e eu estava errada.

Eu também odeio estar errada.

Ser criticada, estar errada, levar bronca, tudo isso é a imagem do inferno pra mim.

É muito orgulho que eu tenho que vencer, tanto orgulho que chega a ser ridículo.

E no meio do orgulho tem a vontade de ser amada, valorizada, a sede de justiça, as minhas fantasias cristãs de morar em um convento pacífico.

Eu não sou uma pessoa muito madura.

Mas felizmente, o meu orgulho já foi esmigalhado muitas vezes e é esse o treino que é o segredo da felicidade. Um dos segredos da felicidade é ter o seu orgulho massacrado porque disso vem uma incrível leveza.

Não se importar tanto com nada, nem com o que os outros dizem de você nem com o que você mesma diz de você.

Saber quem você é e ficar calmo.

Bom, mas eu consegui, depois de desabafar bastante, voltar e fazer bem feito o que eu tinha deixado de fazer.

E agora eu estou aqui, de volta, no ilusório trono do perfeccionismo, da altiva razão, da frágil moral.

Mas o descanso é alguma coisa maior do que estar errado e estar certo.


O descanso tem mais a ver com um sorriso secreto na alma.


Tuesday, September 13, 2016

ando conhecendo pessoas felizes




Tenho conhecido pessoas felizes ultimamente.

E isso é uma graça.

As pessoas felizes têm algumas coisas em comum> A maioria delas têm namorado, elas costumam nunca reclamar, e geralmente elas são cheias de entusiasmo e de amigos.

Elas trabalham como freelancer e adoram viagens.

Coisas que as pessoas felizes fazem: estripulias.

Já vi uma pessoa feliz gravar o canto dos passarinhos para o seu amor.

E vi uma pessoa feliz calçar short sem calcinha na praia, depois de cair no mar, porque a parte de baixo do bikini fica molhada, mas rola só colocar o short por baixo do vestido, nem precisa se preocupar com a calcinha e aquele constrangimento de se trocar na praia na frente de todo mundo e acabar mostrando mais do que gostaria.

Uma amiga que eu conheço disse que gosta de pessoas que sabem tomar "um vento na asa". E falou isso abrindo os braços para cima, enquanto soprava uma brisa do mar e a gente corria para se secar no vento depois de um banho de mar à noite.

Porque assim. Eu conheço as melhores pessoas.

Essa menina me ensinou a mijar de pé no mar, com a água até o joelho, quando o mar está muito bravo e você está apertada.

Vários ensinamentos.


eu, um cara que eu amo e nossos momentos inesquecíveis






Ok. Um texto sobre o amor agora.

Tem esse cara de quem eu gosto. Eu realmente gosto dele. Quer dizer, eu já passei a fase do fogo da paixão e estou resignada sobre o nosso futuro juntos.

É estranho porque racionalmente, com tarô e intuição e analisando os fatos eu sei, aliás, eu tenho certeza absoluta de que nós dois nunca, sem se o mundo acabasse hoje e só sobrasse nós dois na face da terra: nós nunca ficaríamos juntos.

É uma coisa que não combina direito. A ponto de eu saber que meu desejo por ele se mistura com um pouco de nojo e uma ponta de aversão.

Politicamente ele me dá asco.

Mas mesmo assim existe amor. Existe um amor que nasceu e ele não vai morrer nesse coração.

Meu professor de catecismo me dizia isso e era tão legal. De algumas pessoas você vai gostar de graça, sem saber o motivo. É bem isso. Até de pessoas que não "mereceriam" esse amor, você vai gostar. E pessoas que mereceriam muito mais amor da sua parte às vezes não te cativam.

Inexplicável do jeito que é, eu amo esse cara.

Assim, de um jeito estranho, como quando você gosta de alguém que é velho demais, ou novo demais, ou estranho demais, ou que tem uma religião bizarra.

Eu gosto dele. Eu não, meu coração, saiu na frente, pá, e perdi a guerra contra a negação desse amor.

É interessante porque ele sabe disso.

Ele sabe que eu sinto esse amor débil mental por ele.

Mas ele também sabe que it's not gonna happen. E just because. Só porque não temos aquela fagulha essencial que faz as pessoas transarem e se apaixonarem.

Nos falta algo como casal, semelhanças fundamentais e atração física.

E mesmo assim o amor está ali, à espreita, fiel como um cão.

Às vezes é bom estarmos juntos trabalhando, ou fazendo alguma coisa para o chefe, ou discutindo algum assunto de uma aluna, ou procurando cd's em alguma livraria.

Às vezes não estamos fazendo nada também.

Mas o amor está ali. Esse cão idiota, meu Deus. Como ele é persistente.

E no silêncio do meio da tarde, entre uma xícara de café, uma risada e uma preocupação com algum texto do xerox,


o amor descansa entre nós.

Como um gato enrolado aos pés do dono. Encostando só as costas, só esticando uma pata para sentir a companhia do seu joelho.

E é o suficiente.



Levando o perdão até as últimas consequências




Eu estou lendo um livro sobre perdão.

Ainda não sei direito o que eu acho desse livro. Mas tenho um bom pressentimento.

Enfim, o livro fala sobre nossa tendência de culpar os outros e oferece outra via de comportamento.

Mais ou menos assim, o que aconteceria com uma pessoa, comigo ou com você se a atitude de culpar alguém simplesmente não existisse mais no seu leque de comportamentos habituais?

Queria escrever mais sobre esse livro mas preciso fazer milhões de outras coisas.

Por exemplo, voltar a ler esse livro.

reencontrando o último cara que me magoou muito




Meu pai me perguntou outro dia se eu tinha conhecido alguém. Minha mãe soltou outro dia durante uma conversa que eu tinha "problemas de relacionamento."

Sabe o que é pior?

Como é que você chega para os seus pais e diz assim, "pai, mãe, todos os homens que eu conheço se incomodam comigo e querem me colocar pra baixo. Até meus terapeutas fazem isso. E eu saio fora da relação porque isso é saudável. E eu não aguento mais e agora eu estou de férias de ser uma artista odiada pelos homens que pareciam tão interessantes e ficam brincando de provar que eu sou pior do que eles."

E isso não resiste a vários questionamentos. Isso não passa por exemplo por verdadeiro para qualquer psicóloga de esquina que venha com um discurso pronto do tipo "isso é uma crença limitante sua, querida, enquanto você pensar assim, nada de bom vai te acontecer."

É por essas e outras que o Cristianismo me ajuda.

O Cristianismo diz que todo mundo é pecador.

Pelo menos é uma perspectiva melhor do que culpar a vítima e dizer que ela "atraiu" aquela merda para si porque afinal ela está com "bad vibes".

Enfia essa bad vibes no olho do teu cu.


Eu ia falar sobre o reencontro com o último cara que me magoou muito. Mas é chover no molhado.

Acho que vou falar sobre o livro que ando lendo e sobre o treinamento de não culpar ninguém nunca mais.




nada que seja pesado




Foi nesse último sábado antes do assalto, eu acho.

Estávamos caminhando na rua de noite, eu e duas amigas. E uma delas estava narrando pela centésima vez uma história de abuso em um relacionamento passado. O problema é que ela estava revisitando uma história desinteressante, e violenta, que nós já conhecíamos porque ela já tinha contado essa história com outros detalhes antes.

Um cara que queria sempre o almoço dele ao meio-dia, um cara que ela só parou de agradar quando eles pararam de transar.

Então eu cortei o relato dela e pedi para a gente falar de coisas (não sei sei eu disse leves ou felizes, mas acho que foi felizes). Isso foi totalmente contra a filosofia da comunicação não violenta e a escuta ativa, que eu valorizo muito e que significa você apenas escutar o que a pessoa precisa te contar sem dar conselhos malditos e lições de moral e sem se comparar com ela e dizer coisas como "pior eu que..." ou "pelo menos você não pegou uma doença/morreu/sofreu um ataque de zumbis".

Mas foi bom pra mim. E acho que foi bom pra ela. Amigas não são terapeutas e cada uma precisa de um pouco de paz e diversão na vida. E ela estava começando a cansar repetindo a história. Mesmo que ela precise repetir. Na caminhada de sábado à noite pra casa, é um pouco demais.

Só que daí ela decidiu contar uma história feliz e começou a contar de como o motel que ela foi com um cara com quem ela transou e nunca mais viu era bonito.

Amiga, me ajuda a te ajudar?

É tenso né. Essas coisas que atravessam a amizade entre as mulheres, essas coisas como fazer merda, ser agredida, fazer merda, ser agredida, fazer mais merda, contar a merda que você fez para as amigas.

Essa moça tem muita culpa. A gente ouviu, a gente falou que culpa não adianta nada.

Mas não é isso. Ela é uma pessoa que eu mal conheço com problemas que eu entendo, mas que ao mesmo tempo eu não entendo.

Eu não sei qual é a dor que ela sente. E às vezes eu preciso me esforçar pra manter essa perspectiva e voltar a ser sensível.






O padre me assombrando



Acho que foi a primeira vez que eu odiei um padre.

Com todas as minhas forças.

Ele me disse que eu não devia cair na tentação de ser um herói ou uma vítima.

Porque afinal ninguém é Cristo. (No que ele estava completamente certo).


Mas eu escrevo que


As pessoas deviam receber um treinamento para ajudar as outras.


É só isso que eu quero deixar escrito hoje.

uma grande reflexão censurada



Hoje chegaram algumas caixas no trabalho e brincaram comigo sobre eu ser feminista e querer igualdade e sobre a minha obrigação em carregar as tais caixas como os homens que estavam se prontificando a carregar estavam fazendo.

Só que era uma piada.

E... eu não ri.

Na verdade eu acreditei que quem fez essa piada pensasse assim. Porque em geral é na hora de pagar a conta, e só na hora de pagar a conta que o assunto feminismo aparece. Ou na hora de dividir a carga.

Mas não era sobre isso que eu ia escrever.

Escrever se tornou uma atividade triste para mim. Por mais que me traga alegria. Eu fico feliz quando minhas AMIGAS dizem que gostaram do que eu escrevi. Mas.

A verdade é que depois de alguns anos de feminismo o mundo fica triste, viver fica triste, resistir, desistir fica triste. Reagir, passar a vida lutando ou apenas não conseguir evitar a consciência sobre a violência que te atinge é profundamente triste.

E saber que a luta não será ganha é mais triste ainda. Os homens aprontaram e vão continuar aprontando, assassinando, estuprando, matando, fazendo os comentários que eles fazem, na rua, entre eles, na sua cara, quando vocês estão a sós.

Mas mais do que isso.

Mais do que desistir de explicar para um cristão o quanto é sujo reduzir o feminismo a uma ideologia de esquerda nefasta enquanto tantas mulheres são assassinadas no Brasil (o número aumentou mais de 230 por cento segundo o Mapa da Violência, pelo que eu me lembre, na última vez que contaram uma última década, não vou olhar isso de novo).

Mais do que explicar que a existência de Deus atravessa a minha vida e que isso não quer dizer que eu vendi meu cérebro para uma Igreja do Mal que "matou tanta gente na Inquisição"

Ou seja, ser uma feminista cristã, isso ficou impossível, e me cansou.

Mas é mais, ainda é mais do que isso.

A vida exige que eu me posicione. As pessoas, as oportunidades que aparecem. De novo a vida vem me convidando docilmente para ser justa. Comigo, ou com mulheres que eu conheço e com as que eu nem conheço.

E é dessa consciência que é difícil fugir. Talvez seja um fetiche, talvez eu esteja me dando muita importância, mas e se for assim?

Escrever tem sido um exercício triste.

Não posso e não quero falar. Essa é a verdade. Quero ser verdadeira, mas não quero falar.

Não quero fazer terapia. Não quero falar. Não quero as palavras. Mas as palavras são meu descanso.

Talvez eu volte a fazer música.


A música pelo menos não machuca tanto se não tiver letra.


Estou cansada hoje. Docemente cansada. Só isso. Só saber que ser verdadeiro exige de mim uma força que eu não tenho agora.

Hoje vi um desabafo de uma amiga sobre violência psicológica. Admirei a coragem que ela teve para se expor, para avaliar a situação com cabeça fria, para dizer o que pensa.

Eu fiquei tempo demais sem dizer o que eu penso.

Se eu abrir a boca, é tanto ódio que eu prefiro matar alguém.

Mas agora eu estou no caminho da santidade e não posso matar nem acusar ninguém.

É um saco.













Friday, September 09, 2016

The Flying Concellos, o maior casal de trapezistas da história do circo




Achei essa foto pesquisando trapezistas.

A Amiga Nova



Trapeze Dreams, By Blackiliner


Minhas melhores amigas eu conheci em sala de aula. Com exceção de uma amiga que eu conheci em um bar, lendo tarô cigano, minhas melhores amigas eu conheci em salas de aulas, eventos acadêmicos e bibliotecas.

Nesse dia em que conheci a Amiga Nova, que vou chamar de Trapezista, eu resolvi falar durante um evento muito chato sobre realismo fantástico. O evento já tinha congelado, se uma alma penada aparecesse, ninguém se assustaria. Eu poderia encontrar uma cabeleira loira em um canto da sala ou cuspir coelhos que ninguém ia nem tremer. A sensação de tempo parado era enorme.

Então eu resolvi fazer um comentário, e depois eu fiz outro comentário e depois outro. O tempo tinha que passar e eu ia fazer alguma coisa com meus pensamentos, compartilhar. Era uma descida ao inferno, eu não tinha reputação, eu não tinha nada a perder, ninguém ia dizer nada, então eu falei. E todas as vezes em que eu abria a boca, uma menina da plateia que estava sentada duas fileiras à minha frente virava a cabeça e sorria.

Ela usava um rabo de cavalo e óculos de aro azuis, uma roupa jeans do século passado ou dos anos oitenta, que bem poderia ter sido da Rita Lee ou da minha mãe. E quando podia, ela olhava para mim e sorria um sorriso transparente cheio de vida porque afinal eu estava falando sobre um livro com bruxas e feiticeiras ou sacrifício de carneiros e os meus assuntos amenos típicos do dia a dia. E ela me olhava com os olhos acesos.

E eu quis muito ser amiga dela. Mas eu já tinha gasto todas as minhas fichas sendo a louca do congresso. Eu não tinha mais energia. Quando tudo terminou eu fui no banheiro e ela estava lá, então nós nos olhamos e sorrimos e eu perguntei se ela já tinha lido aquele livro sobre Jung e ela disse que já tinha ouvido falar.

Eu quis muito passar meu telefone, pedir o telefone dela. Mas eu já tinha gasto a cota de ímpeto do dia. Então eu saí do banheiro derrotada, esperando encontrar essa menina em algum outro dia.

E eu encontrei. Na próxima festa. E foi ali que tudo começou.

Deus é o melhor para apresentar as pessoas. Não tem nada como um encontro orquestrado por Deus em que você tem certeza absoluta de que aquele encontro foi coordenado, foi estrategicamente pensado para aquele momento da vida daquelas duas mulheres que vão aprender muito uma com a outra.

E foi assim. Ela chegou na festa e eu disse "eu queria mesmo te encontrar de novo" e ela disse alguma outra coisa como "eu também" ou "que massa" e assim foi, não aconteceu aos poucos, aconteceu de uma vez.

Foi um laço definitivo que se formou em uma noite enquanto sentamos no chão do meu quarto contando segredos.

Só uma noite e foi suficiente para o sentimento de porto seguro e de grandiosidade.

Porque há pessoas tão vastas, tão grandes, tão antigas que a sensação de conhecê-las é a sensação de visitar outro país, de passear por uma biblioteca, de assistir todos os filmes mais poéticos da sua vida.

Algumas pessoas têm mania de dizer que mulheres competem entre si, que mulheres não se ajudam, que mulheres falam mal uma da outra e não se unem.

Então às vezes é importante escrever e deixar escrito que não é só esse tipo de rivalidade entre mulheres que acontece. Não é. Às vezes o que acontece é uma porta para viagens muito maiores do que os músicos do Pink Floyd jamais sonharam.

Às vezes o encontro entre duas mulheres tem a força de duas gestações, de duas tradições de vivências e narrativas, de duas almas trapezistas que caíram muito mas que conhecem o tempo suspenso no ar.

A escrita não é o lugar dos nossos segredos. A vida é.








São Paulo não tem uma luz bonita, mas tem luz



Foto: Luis Fernando Gallo, CBN.

Minas Gerais tem uma luz bonita, dourada e espessa, uma luz do tempo que se arrasta pela tarde. É uma luz quase dura, e quase palpável, mas é dourada, então é uma luz cheia, que desce pelo dia, que cai nas cabeças das pessoas como uma benção.

É a luz do tempo antigo, de quando ainda se matava e morria por motivos como herança, intriga, revolução e não o craque e a polícia.

O Rio de Janeiro tem uma luz de cinema, uma luz branca, branca, aberta, esparsa, imensa, que fere os olhos. Uma luz tão branca que dá vontade de voltar para casa.

Mas na praia, essa luz branca deixa tudo com gosto de sonho, todas as pessoas ficam suaves, participando daquela cena de filme em que algo muito bom está prestes a acontecer, aliás, está acontecendo ali, com todo mundo, com ninguém em particular, apenas uma luz branca, extremamente branca e suave, de inverno, geral, aberta, escandalosamente farta; é muita luz mesmo os olhos não aguentam então me dá um beijo para eu fechar os olhos.

São Paulo é bonita em março, abril, maio e só. É quando tem o outono na cidade, o ar está gelado, as mulheres andam de bota e os homens de cachecol e sobretudo. E todo mundo está bonito e sério e fuma cigarro e a fumaça é azulada na tarde fria com o céu sem nuvens. Muito amor nas sombras alongadas das praças e no vinho quente dos bares da paulista de noite.

Mas é isso, três meses de luz bonita dourada e o resto é um borrão. O resto são o verde e o branco e o amarelado e o vermelho dos faróis dos carros e dos semáforos e das placas e do neon da rua Augusta. O resto são luzes artificiais.

Mas em São Paulo moram algumas pessoas que te pegam pela mão e te salvam no meio da noite. No meio da vida. Elas te salvam. Elas sabem o que é fazer um salvamento noturno e um resgate, elas te levam para casa e te oferecem bebida e comida e cobertor. E talvez, livros.

Então São Paulo é a cidade mais quente.

Sunday, August 14, 2016

assistindo o furacão se formando


1.

É estranho. A sensação atual é a de olhar para uma situação e ver o furacão se formando. As peças, as sombras, as energias baixas agindo ali, o furacão e o céu escuro.

E saber que tenho diante de mim um furacão é estranho porque já estou preparada para quando tudo for para os ares e ao mesmo tempo talvez seja verdade que eu tenho tempo de reverter a situação com meus pensamentos, com orações e com algum feitiço próprio. Algo que eu possa inventar.

Eu vejo adiante, ele vem chegando, mais um homem que vai me destruir, ele vem chegando cheio de entusiasmo para a destruição.

Eu olho e penso: que falta de criatividade.

2.

Diante daquele presságio, diante de um comportamento dominante e abusador, do uso do conhecimento em causa própria ou para causar dano e destruição, diante da ironia fina e do sarcasmo lancinante, e de uma inteligência bem humorada e ácida que esconde um vazio e uma profunda insatisfação com a vida,

está a minha presença

a minha dor

a minha risada

e depois

a escrita.

Wednesday, August 10, 2016

conselho para quem escreve: não escute ninguém



Acho que foi ontem que eu pensei nisso. Eu acho que o melhor conselho para quem escreve é não ouvir ninguém. Haha. Não escute ninguém, apenas escreva. A escrita vai encontrando o caminho que ela quer.

Claro que ler ajuda, estudar sobre roteiro ajuda, grifar livro, jornal, ler poesia, ensaio, que a correção de um editor é tão fundamental quanto a do seu amigo poeta. Mas quando eu comecei a escrever, cheia de medo, na internet, com meus vinte e um anos, já estava bom.

Era até melhor do que hoje. Quer dizer, o tempo passa e nossa flexibilidade muda, nossa sensibilidade muda. Quanto mais o tempo passa, menos juventude, menor energia, menor espontaneidade muitas vezes.

Por que alguém precisa de tanta técnica e conselhos se tudo o que a pessoa viveu é material suficiente para poder escrever por anos.

Entender a língua, amar o estilo de um escritor, aprender um idioma, estudar latim, gramática, fonética, morfologia, literatura e teoria literária, falar de livro, comprar livro, grifar livro, pintar livro de aquarela, fazer dedicatória.

Mas esse mundo aqui dessa pessoa que eu invento agora é bom, é suficiente para escrever.

Não dá para se perder e ir tão longe.

Eu não quero ouvir mais ninguém. Só quero escrever e reaquecer a escrita. Tentar sempre fazer um livro, mas estar aqui.

Estar aqui de volta. E depois desistir de tudo e apagar tudo. Essa liberdade que talvez seja uma das últimas liberdades disponíveis.

Estar aqui.

Monday, August 08, 2016

Domingo na praça com varizes





Hoje era domingo. Eu chamei uma amiga para conversar e tomar sol em uma praça bem simpática que fica perto da casa dela. Estamos as duas sentadas em um banco limpo desses verdes com tábuas de madeira, bem antigos e que lembram a infância, ela pára, olha para frente e me diz "a gente precisa cuidar das varizes."

Sabe, eu fico impressionada com a quantidade de lixo que tem na cabeça das pessoas, mas quando você é mulher, essa quantidade é bem identificável, bem precisa, boa parte dos pensamentos ruins das mulheres são ideias bem pouco complexas tecidas com o puro fio de seda do tormento sobre o próprio corpo. Eu conheço essa merda, demorei bastante tempo para largar o hábito de colocar defeito no meu corpo. Essas conversas sobre o corpo, essas conversas que vão tomando o nosso tempo e que não levam a nada. Essa minha amiga não consegue mais ser feliz. Alguém que senta em um banco de praça com você no domingo de sol, de manhã e te diz "a gente precisa cuidar das varizes" não pode estar bem, não pode saber alguma coisa consistente sobre a felicidade.

Eu devia ter respondido alguma coisa do tipo "ah vai cagar" ou "qualquer velha cheia de varizes é mais feliz do que você". Mas seria péssimo. Indelicado, reativo. E não ia ajudar em nada a felicidade dela. Ou talvez ajudasse, os mestres zen atiravam os discípulos pela janela, pelo que me disseram. Mas uma resposta assim não provocaria uma iluminação.

A gente passou por uma banca de jornal e tinha uma capa bonita com uma cantora grávida posando de frente, com os cabelos soltos, o barrigão à mostra e uma roupa de roqueira. Eu achei super legal, daí fui comentar, e essa amiga vem e me diz "ela tá enxuta agora, grávida mas enxuta." A beleza da imagem foi trocada pelo peso e gordura da pessoa retratada.

Se eu dissesse que essa amiga é gorda, seria mentira, mas seria um consolo. Só que ela não é gorda, nem rechonchuda, ela só tem um pouco de barriga. Nem motivo para a infelicidade com o corpo ela tem. Alguém poderia dizer que eu não posso julgar, que 5 centímetros de barriga podem acabar com a vida de alguém. Sim, eu entendo isso, a gente pode colocar a felicidade a perder por qualquer motivo mesmo.

Essa minha amiga é uma das melhores pessoas que eu conheço, mas ultimamente eu tenho percebido que ela não tem as manhas de ficar bem. Isso é uma coisa que você desenvolve com o tempo. Exige certa destreza mesmo, não deixar que a infelicidade tome conta de tudo. Apenas não deixar, ser firme, como quando matamos uma barata.

Há um potencial doentio na tristeza. Um potencial de abismo, de eternidade azul e de morte lenta antes da morte lenta.

Aprendi, com quase quarenta anos, a evitar a tristeza pelo menos nos pensamentos. A tristeza invade o corpo e você precisa encontrar um jeito de tirá-la dos seus ossos, da sua pele, do seu estômago, do coração. A vantagem de envelhecer com elegância é essa, conhecer os seus próprios demônios, as suas dores, as suas faltas. Fazer uma faxina no corpo, seja gritando, rindo, falando palavrão, cantando, correndo uma maratona, fazendo reiki, bebendo a ayawaska, indo no culto, no terreiro, na casa do seu melhor amigo.

A tristeza pode dominar o corpo e a alma. Se você não vigia seus pensamentos, a cabeça pode virar uma caixinha de música com canções repetidas, que só toca um monte de preocupações, girando uma bailarina louca de ácido.

Eu sei que nós duas somos tristes, mas somos diferentes. Ela enxerga a vida como uma eterna falta, uma eterna insatisfação. Eu não dou tanto valor para o inconsciente, pra mim, Deus está acima das nossas funções psíquicas. Eu disse isso pra ela no banco.

Ela está caindo no abismo da tristeza.

Bateu um vento na rua, todas as folhas secas das árvores voaram, formando uma cortina de metros de confete natural, um redemoinho poético de folhas verde e vermelhas. Eu abri os braços, ela fechou os olhos e disse "poético? esse monte de poeira?"





Friday, July 01, 2016

as sandálias da humildade







A igreja que eu frequento faz um encontro com as pessoas da comunidade para revisar a doutrina e fortalecer a fé porque se você não ficar muito em contato com pessoas que tenham fé, a sua própria fé pode ir se enfraquecendo.

O mais legal desses encontros são as histórias das pessoas. Quando as pessoas se abrem e contam alguma uma história recente ou antiga que tem a ver com o tema do estudo daquela noite.

Na última vez que eu fui, o tema era a misericórdia de Deus. Mas o mais divertido foi o padre dizer que antes ele falava mal de padre e agora parou com isso. Eu gosto do senso de humor dele.

Esse padre dá aulas em uma universidade e estava triste porque muitos dos alunos não tem a menor fé em Deus. Mas sempre que conversamos nesses encontros, percebemos nossas próprias dificuldades mais do que as dos outros.

O padre falou sobre a importância de ser um missionário, de se importar com os amigos que não estão na igreja, com os familiares, incluir as pessoas que amamos, sem pressão. Sejam criativos, ele disse, falando que as pessoas apaixonadas são criativas.

Eu sempre achei estranho o outro coordenador dizer que nós fomos escolhidos. Eu sempre pensava que eu não tinha feito nada de mais para ter sido escolhida por Deus no lugar de outra pessoa. Nessa noite o padre disse que Deus tem sua própria metodologia e que ele escolhe alguns que vão atraindo outros. Pelo menos foi isso o que eu entendi.

Mas enfim, o padre disse que o que mais alegra a Deus é ter misericórdia e ternura por nós, seus filhos, para que nós sejamos assim também com os outros.

Eu estou longe de calçar as sandálias da humildade, mas não vou negar que melhorei. Um pouco pelo menos eu melhorei.

Já posso calçar meu salto alto vermelho.