Sunday, August 14, 2016

tudo é tão perigoso por aqui



Tudo é tão perigoso por aqui nesse mundo onde os bundões venceram.

Os bundões são tão organizados e protegidos.

E os rebeldes são solitários e se escondem e escondem o que pensam para não serem presos e mortos.

arrogância



É tão arrogante pensar que você tem mais ética do que qualquer outra pessoa.

O cristianismo redentor é bem sofisticado nisso, todos somos pecadores.

No instante em que você pensa que tem mais ética e moral do que alguém, Deus ou o diabo riem da sua cara.

Talvez os dois.

só a bondade


Silenciosamente, a mulher olha para o homem e pensa que só poderá ser destruída por um gesto de bondade.

Friday, August 12, 2016

só uma pequena verdade



Os verdadeiros super-heróis são as mulheres.


Wednesday, August 10, 2016

conselho para quem escreve: não escute ninguém



Acho que foi ontem que eu pensei nisso. Eu acho que o melhor conselho para quem escreve é não ouvir ninguém. Haha. Não escute ninguém, apenas escreva. A escrita vai encontrando o caminho que ela quer.

Claro que ler ajuda, estudar sobre roteiro ajuda, grifar livro, jornal, ler poesia, ensaio, que a correção de um editor é tão fundamental quanto a do seu amigo poeta. Mas quando eu comecei a escrever, cheia de medo, na internet, com meus vinte e um anos, já estava bom.

Era até melhor do que hoje. Quer dizer, o tempo passa e nossa flexibilidade muda, nossa sensibilidade muda. Quanto mais o tempo passa, menos juventude, menor energia, menor espontaneidade muitas vezes.

Por que alguém precisa de tanta técnica e conselhos se tudo o que a pessoa viveu é material suficiente para poder escrever por anos.

Entender a língua, amar o estilo de um escritor, aprender um idioma, estudar latim, gramática, fonética, morfologia, literatura e teoria literária, falar de livro, comprar livro, grifar livro, pintar livro de aquarela, fazer dedicatória.

Mas esse mundo aqui dessa pessoa que eu invento agora é bom, é suficiente para escrever.

Não dá para se perder e ir tão longe.

Eu não quero ouvir mais ninguém. Só quero escrever e reaquecer a escrita. Tentar sempre fazer um livro, mas estar aqui.

Estar aqui de volta. E depois desistir de tudo e apagar tudo. Essa liberdade que talvez seja uma das últimas liberdades disponíveis.

Estar aqui.

vigiando Deus




Hoje todo mundo se observa, se investiga, todo mundo pode tirar foto e filmar qualquer pessoa na rua.

Mas eu prefiro a ideia absurda de vigiar Deus. Porque afinal é um fracasso alegre que sempre supera as minhas forças.

Às vezes eu fico pensando se é possível chegar ao ponto de realmente entregar a própria vida a Deus e ter confiança absoluta Nele e em tudo o que acontece.

Viver sem medo e sem preocupação, ou pelo menos com pouco medo e com pouca preocupação.

Chegar ao ponto de perceber a luz da tarde caindo sobre o piano quando a música está bonita, perceber os passarinhos cantando quando a música tem acordes maiores.

Essas coisas estranhas. Está na moda agora uma série de suspense sobre coisas estranhas. Mas o melhor suspense é vigiar Deus e ser surpreendido por Ele.

Será que vou chegar a acordar um dia, olhar para a minha vida e achar que tudo foi perfeito? Que todas as pessoas que eu conheci foram perfeitas, que todas as situações foram boas?

Será que um dia vou acordar sem ressentimento nenhum, sem mágoa nenhuma, sem nada a resolver com alguém da família, ou do trabalho, viver tão cheio de amor que vou começar a não precisar de elogio, a não precisar de reconhecimento, a não precisar de muita coisa além do amor e de um dia de cada vez?

O que eu gosto na escrita são as possibilidades de ser. Essa voz é minha? Quem é essa mulher que escreve e que está serena? Ela é uma invenção ou sou eu exatamente agora?

Tudo isso é uma falsa compreensão do cristianismo, já que dizem que o importante não é ser feliz, mas se sentir abençoado, não é ter uma vida sem tragédias mas ter força e fé nas horas ruins?

Qual a segurança desse momento e dos próximos?

Isso é importante?

Eu sofri tanto. E agora eu posso vir aqui e escrever como uma mulher feliz e foda-se. Só de fora da imensa felicidade e do imenso desespero é que essa calma consegue ser tão transparente?

A vida está só começando. E isso é totalmente absurdo depois de ter acontecido tanta coisa.



A verdade sobre o amor




Por muito tempo o amor, na minha cabeça esteve misturado a uma fantasia mal desenhada de romance. O amor era uma palavra gelada, uma espera insuportável, e tinha um sabor amargo de café sem açúcar que um psicanalista provavelmente chamaria de "falta".

Antes de encontrar o amor eu encontrei um namoro doce com um homem bom e uma história de amor com um cara bonito e agitado. Também encontrei paixões de semanas, namoros com homens que viraram meus melhores amigos e noites frias com pessoas que eu não poderia reconhecer se encontrar de novo.

Do fundo da gaveta e do meio dos diários saem histórias picadas sem começo, sem fim e sem sentido. E do novelo da busca por amor eu desenrolo todas as formas de humilhação e desprezo que os homens sem prática no amor me apresentaram. Tragédias e convites à loucura.

Quando eu comecei a entender o amor eu estava cuidando de um velho judeu americano que eu acabei ajudando porque nós dois éramos os dois náufragos que falavam inglês numa cidade de 7 mil habitantes. A gente se encontrou no fim de tarde em uma biblioteca.

Esse velho tinha mania de ir até a estante de pocket books e tirar todos os livros do lugar, para depois colocar vários deles no lugar errado, o que enlouquecia a minha chefe.

Depois ele tinha mania de guardar os dólares dentro dos pockets e ficava abrindo as páginas amareladas e procurando seu pequeno tesouro, a aposentadoria que vinha dos Estados Unidos, entre as páginas de autores que eu nunca tinha lido.

Acho que foi de tarde, estávamos cantando Nina Simone juntos na rua, ou sentados tomando um café muito ruim mas rindo muito. E foi ali que eu percebi que o amor não era infinito, ele era estreito, um sentimento pequeno, um pássaro de asas curtas que voa rápido e pousa num galho de árvore.

O amor não era complicado é um aquecimento, um conforto. Uma risada juntos, num dia perdido no tempo. O amor é só esse espaço muito breve de calor, quando alguém faz pão de queijo para os amigos, quando uma filha telefona para a mãe ou para o pai.

No final o amor não era grande, era estreito e rápido, como os fogos de artifício, como o sorriso de satisfação do padre na reunião da igreja. Um momento de entendimento, quando seu chefe te olha como uma pessoa. Ou quando um amigo seu te dá uma caneta.

Viajar para longe e comprar uma lembrancinha, encontrar o presente certo, mandar uma mensagem de saudade ou de feliz aniversário.

A cabeça deixa as coisas tão complicadas e delirantes, ou os filmes.

Eu já tive tanta vergonha de não estar casada, namorando, com alguém, vergonha e sentimentos escuros, lodo e pântano para o dia de verão.

Uma vez eu fui até a casa da minha mãe e peguei alguns dos meus livros favoritos e deixei eles perto de mim antes de dormir. Foi como rever meus amigos. Uma alegria silenciosa.

É estranho estar feliz solteira, é estranho. Ter se acostumado e acordar todos os dias sabendo que não vai acontecer nada e vai ser bom.

Muitas mulheres são assombradas por essa situação, não namorar, é melhor morrer do que não namorar. E o amor está o tempo todo se apresentando para as mulheres mesmo assim, mesmo sem namorado e relacionamento sério.

Minha casa está mudando e o amor está acontecendo entre nós, quatro mulheres de idades diferentes, de lugares e vidas diferentes, com problemas afetivos e familiares diferentes, se aproximando, rindo, passando o tempo antes de dormir juntas.

O amor irresistível que vai contaminando a vida. E cada vez é mais gostoso estar presente para o amor. Dar e receber amor de olhos abertos e coração calmo.

Os gatos sabem disso. Às vezes um carinho mais caprichado e eles entendem e te dão uma mordida, depois lambem o seu pulso. E dizem que a idade mental deles não passa de 6, 4 anos. (Mas eu não acredito).

As pessoas por quem eu fui apaixonada esse ano todas viraram fantasmas e estão distantes de mim, como aqueles quadros de homens ilustres que você não sabe se mataram um índio, estupraram a esposa ou inventaram a pólvera.

Mas o amor está aqui, perfurando cada dia com seu fogo brando.

Como se isso fosse viver, aceitar que o amor veio, aceitar que essa é a única realidade.

O resto é um delírio viciado, esporte é bom com os amigos, com minha mãe gritando quando o atacante entra na área.

O amor é um descanso.

E agora eu quero sempre estar assim. Acompanhando como ele se move, quando ele chega.


Monday, August 08, 2016

Passagem



Hoje eu me sinto na borda de algum grande acontecimento que ainda não chegou.

Um móbile de situações novas,

um sistema solar com um outro sol, lilás, que vai governar a minha vida.

Cristo.

Uma entidade feminina aparecendo como protetora do caminho.

Não é possível ficar assim.

A forma da minha vida não está cabendo em quem eu sou, mesmo que eu não tenha crescido.

Então alguma coisa precisa acontecer, alguma coisa que não seja algum homem falando dos meus defeitos.

Alguma coisa que não seja descobrir que não vale a pena se apaixonar por um homem que fica listando os meu defeitos.

Alguma coisa nova precisa acontecer.

Todos esses meses se empilhando no escuro.

Os únicos acontecimentos reais são os acontecimentos em que existe um momento de amor então a vida sem isso fica vazia.

Sempre que um dos gatos está perto de mim, por causa do amor que faz a vida valer muito é um momento bom.

Às vezes as pessoas são tão secas em relação a isso, como dizia o guru, elas têm sonhos pequenos, pequena é a vida delas.

Apesar do guru aconselhar que eu não queira fazer nada de extraordinário nem ser brilhante ou inventar a pólvora.

Posso intuir outra vida, logo ali, à espreita.

Há um tempo atrás percebi que estava mentalmente decidida a começar a viver depois da pesquisa. E isso é idiota. Depois da pesquisa vai acontecer alguma coisa estranha, o vazio de depois da pesquisa, um obrigatório outro rumo, outra cidade, outra solidão, nova. Outra linha de ônibus confusa.

Agora pelo menos o barco é conhecido, mesmo no oceano e de noite, o barco é conhecido.

Existe aqui ainda uma ponta de raiva, mas eu deveria transformá-la em gratidão. Como se fosse possível moldar a chama do fogo.

Tem uma cena de filme que às vezes volta na minha cabeça, é uma santa pedindo desculpas para um nazista.

Foi algum filme que eu assisti nessas noites perdidas, aquela santa magra, indo para a morte no trem, encontra o nazista que a prendeu. Os dois eram professores, e a santa está no final da vida, já está tão santa que não cabe no mundo, daí ela pede desculpas por todas as brigas que teve com o nazista mas ele não muda a expressão do rosto.

Não tem muita coisa mais absurda do que o desencontro, do que a diferença quando ela é assim gigantesca, olímpica, abissal.

Um cansaço estranho de tudo isso. Não que eu seja uma santa, mas eu sinto a diferença como um tapa todos os dias. Não a diferença entre o mundo e a minha bondade mas entre a pessoa que eu sou e todo o resto.

E pode ser porque eu me sinta especial mas pode também não ser isso. Pode ser que eu me sinta superior, ou inferior ou pode não ser isso.

A resposta pode ser alguma coisa que você não estava esperando ou que você encontrou sem mim.

Uma vez eu quase deixei um namorado doente de ódio porque eu comecei a falar sobre intimidade. Ele não entendeu muito, mesmo disposto a gostar de mim e a me fazer ciúmes e a listar os meus defeitos e toda essa merda que tantos homens fazem, ele nunca entendeu.

Deus me dá muito e eu não posso reclamar mas às vezes preciso escrever isso para não achar que eu estou louca.

Para gostar mais de mim, talvez, ou só como testemunho, mais para não aceitar qualquer coisa que esteja por aí.

Sinto falta de uma intimidade silenciosa que eu tenho com algumas pessoas.

Sinto falta desse silêncio distraído que é feito de amor, que as pessoas que se amam conhecem. Os amigos, as amigas.

Morar longe cansa.

Estar longe cansa.

Cada dia fica mais claro que o amor é a única coisa que faz sentido e que anima essa coisa que dizem que a gente tem e que se chama alma.

Alguma coisa que faça você rir, alguma coisa gostosa de comer, alguma coisa melhor do que estar preocupado.

As coisas que fazem sentido e cabem numa lista pequena.




ninguém quer ser a escritora que foi pega para Cristo



Hoje eu sei porque minhas amigas não viraram escritoras, ninguém queria ser pega para Cristo. Existe uma intuição que aliás é bem baseada em fatos reais, a mídia vai te elogiar e depois vai ferrar a sua vida de um dia para o outro. É isso o que vão fazer com você, como faziam com os reis antes dos sacrifícios, eles podiam fazer tudo o que quisessem, depois seriam mortos, assassinados pela multidão louca por sangue.

Por isso nenhuma das minha amigas virou escritora.

Seria uma falsa vitória. A melhor vitória é continuar escrevendo em papel. Ou escondido, mentalmente.

Assim ninguém vê, ninguém gosta, você não fica famosa e a mídia não te destrói.






Domingo na praça com varizes





Hoje era domingo. Eu chamei uma amiga para conversar e tomar sol em uma praça bem simpática que fica perto da casa dela. Estamos as duas sentadas em um banco limpo desses verdes com tábuas de madeira, bem antigos e que lembram a infância, ela pára, olha para frente e me diz "a gente precisa cuidar das varizes."

Sabe, eu fico impressionada com a quantidade de lixo que tem na cabeça das pessoas, mas quando você é mulher, essa quantidade é bem identificável, bem precisa, boa parte dos pensamentos ruins das mulheres são ideias bem pouco complexas tecidas com o puro fio de seda do tormento sobre o próprio corpo. Eu conheço essa merda, demorei bastante tempo para largar o hábito de colocar defeito no meu corpo. Essas conversas sobre o corpo, essas conversas que vão tomando o nosso tempo e que não levam a nada. Essa minha amiga não consegue mais ser feliz. Alguém que senta em um banco de praça com você no domingo de sol, de manhã e te diz "a gente precisa cuidar das varizes" não pode estar bem, não pode saber alguma coisa consistente sobre a felicidade.

Eu devia ter respondido alguma coisa do tipo "ah vai cagar" ou "qualquer velha cheia de varizes é mais feliz do que você". Mas seria péssimo. Indelicado, reativo. E não ia ajudar em nada a felicidade dela. Ou talvez ajudasse, os mestres zen atiravam os discípulos pela janela, pelo que me disseram. Mas uma resposta assim não provocaria uma iluminação.

A gente passou por uma banca de jornal e tinha uma capa bonita com uma cantora grávida posando de frente, com os cabelos soltos, o barrigão à mostra e uma roupa de roqueira. Eu achei super legal, daí fui comentar, e essa amiga vem e me diz "ela tá enxuta agora, grávida mas enxuta." A beleza da imagem foi trocada pelo peso e gordura da pessoa retratada.

Se eu dissesse que essa amiga é gorda, seria mentira, mas seria um consolo. Só que ela não é gorda, nem rechonchuda, ela só tem um pouco de barriga. Nem motivo para a infelicidade com o corpo ela tem. Alguém poderia dizer que eu não posso julgar, que 5 centímetros de barriga podem acabar com a vida de alguém. Sim, eu entendo isso, a gente pode colocar a felicidade a perder por qualquer motivo mesmo.

Essa minha amiga é uma das melhores pessoas que eu conheço, mas ultimamente eu tenho percebido que ela não tem as manhas de ficar bem. Isso é uma coisa que você desenvolve com o tempo. Exige certa destreza mesmo, não deixar que a infelicidade tome conta de tudo. Apenas não deixar, ser firme, como quando matamos uma barata.

Há um potencial doentio na tristeza. Um potencial de abismo, de eternidade azul e de morte lenta antes da morte lenta.

Aprendi, com quase quarenta anos, a evitar a tristeza pelo menos nos pensamentos. A tristeza invade o corpo e você precisa encontrar um jeito de tirá-la dos seus ossos, da sua pele, do seu estômago, do coração. A vantagem de envelhecer com elegância é essa, conhecer os seus próprios demônios, as suas dores, as suas faltas. Fazer uma faxina no corpo, seja gritando, rindo, falando palavrão, cantando, correndo uma maratona, fazendo reiki, bebendo a ayawaska, indo no culto, no terreiro, na casa do seu melhor amigo.

A tristeza pode dominar o corpo e a alma. Se você não vigia seus pensamentos, a cabeça pode virar uma caixinha de música com canções repetidas, que só toca um monte de preocupações, girando uma bailarina louca de ácido.

Eu sei que nós duas somos tristes, mas somos diferentes. Ela enxerga a vida como uma eterna falta, uma eterna insatisfação. Eu não dou tanto valor para o inconsciente, pra mim, Deus está acima das nossas funções psíquicas. Eu disse isso pra ela no banco.

Ela está caindo no abismo da tristeza.

Bateu um vento na rua, todas as folhas secas das árvores voaram, formando uma cortina de metros de confete natural, um redemoinho poético de folhas verde e vermelhas. Eu abri os braços, ela fechou os olhos e disse "poético? esse monte de poeira?"