Saturday, May 13, 2017

ainda treinando



Photo: Bruce Davidson

Eu queria saber como as palavras iam ficar, e como o meu rosto ia sair nas fotos depois de conhecer alguém como você, de quem meu coração resolveu gostar com essa convicção religiosa.

Um homem que chega de jeans, camisa, perfume, senta e acende um charuto, faz uma piada, me dá um beijo.

Esperei para ver como as palavras iam ficar quando o meu texto não fosse mais feito de espera. E agora não espero. Não estou esperando, esperando e tentando encontrar a terceira perna que Clarice perdeu e faz a personagem andar desequilibrada.

Não estou esperando, acordando com a sensação de mais algum dia neutro sem tempero, sem a paz de quem está vivo aqui e nos pensamentos de outra pessoa.

Esse acolhimento.

As pessoas que falam de política e de filosofia, aquelas que estão rezando na igreja também precisam disso.

Há uma igreja escura perto de casa. Eu gosto de igrejas escuras onde as senhorinhas gordas e magras sentam e viram estátua, rezando quietas e desaparecendo no escuro e no meio de pedidos e segredos.

Esse acolhimento de uma igreja escura e vazia no meio da tarde.

Ir para casa de alguém quando ela fica perto da rua dos bares, aquela porta se abre e de repente estamos todos salvos do barulho da rua, dos ladrões, dos acidentes, das pessoas feias, estamos todos salvos dentro da sala de alguém e vamos deitando nas almofadas, o dono da casa pergunta quem quer cerveja e o mundo fica menos cruel.

O acolhimento de ter um nome na boca e quando você pronuncia esse nome, o coração sabe que nada pode dar errado porque esse nome está vivo andando para lá e para cá. Alguém atende por ele e te chama e sente saudade.

Minha vida parece aquele solo de guitarra, aquele segundo solo de guitarra, quando o arranjo permite a sensação de viajar de trem, de vida imensa cheia de aventura e de câmera filmando a paisagem.

Agora fui reprovada por falta no curso da crisma e ninguém vai me batizar esse ano.

Eu choro na rua.

Mas depois eu compro uma pizza.

E estou feliz de novo. Como aqueles cachorros que ficam felizes todo o dia, como aquelas crianças que se divertem subindo uma escada, como aqueles mendigos que te agradecem e te mandam ir com Deus e você se sente tão bem mas você só deu um punhado de moedas e hoje a mulher da rua não estava chorando como eu e me disse "vai com Deus" e foi tão bom.

Agora estou assim, resistente ao mal, impermeável a preocupações, só porque toda essa sensação de sorte está atravessando o meio de todos os dias.

E eu já nem sou a mesma pessoa. Eu devia trocar de nome. Devia trocar de vida. De profissão.

Quero deixar o cabelo crescer e comprar um casaco vermelho igual ao que eu tinha quando era adolescente.

Meu casaco de ir pra guerra.

Uma sensação de que posso reinventar a minha vida inteira, aprender a tocar gaita, a usar a planilha do Excel, a falar italiano.

Só porque o coração aceso traz o entusiasmo que nunca devia ter ido embora.

O entusiasmo do circo, dos cachorros na prancha de surf. Das amigas dançando sua música favorita.

A sensação de que estou em outro filme. A sensação de que agora tenho a chave da vida na palma da mão e posso abrir todas as portas. Correr pela casa, no gramado depois da chuva, encontrar o tesouro no pé da árvore. Dormir no quintal até cair a luz do dia.

A sensação de voltar a morder a maçã, a correr, a sair de casa. A sensação de derrubar quatro paredes.

Como se alguém tivesse pisado no livro da minha vida e agora eu pudesse desamassar todas as páginas e reescrever a história.




chorar de felicidade




Tirei essa foto em Minas no meio de uma tarde qualquer. Era uma nuvem que parecia uma flor, uma água viva no céu.

Você apareceu na minha vida como essa flor de nuvem. Essa forma escandalosa e quieta em cima da minha cabeça. O impossível possível. E parado.

Esse momento em que o céu me deu um sinal de Deus.

Deus que não está olhando para mim, mas passou e arrumou as nuvens de um jeito extravagante.

Um pequeno rasgo no tempo, na passagem normal de um dia que agora se abre. Um repolho ou uma catedral no céu. Um borrão estruturado e cheio de lógica.

O sentimento de calma mais pesada do que a calma, que domestica ainda mais o silêncio.

O que você significa para mim?

O sentimento de chegar em casa, de chegar no país que eu sempre amei.

O dia do primeiro livro impresso, do primeiro filho, o dia que espero há tanto tempo, ser perdoada por alguém que nunca me perdoa.

Estive procurando você, mas sempre achei que seria impossível.

E agora você existe.

É um sentimento estranho e maluco saber que todos os dias podem ter o calor do Natal. Meus pais me compraram a bicicleta azul e eu estou chegando na sala e ela está parada ali, me esperando. (Minha mãe sabia fazer as melhores surpresas).

Meus pais esperam há tanto tempo que eu seja feliz. Só de pensar nisso dá vontade de chorar. Eu fico triste por eles ficaram tristes por eu não estar feliz.

E agora eu estou. E todos poderemos ser felizes juntos, agora que o peso da minha infelicidade foi embora.

Você significa a reconciliação, o fim de todos os julgamentos internos sobre a minha falta de espiritualidade, sobre ainda não estar pronta e o fim de todas as elocubrações mentais sobre não estar pronta, e os cálculos e especulações sobre o que falta para eu estar pronta.

Você me desafia a perder o medo de chorar na frente das pessoas e de dar abraço forte nos outros.

Seu nome significa o fim das manhãs e noites em que eu durmo esperando.

Você traz a volta de uma parte de mim que é feliz e serelepe, que é uma criança antiga e sofisticada que sabe brincar e dançar.

Você significa o fim da dor de perder um grande amor que ronda por tantos dias a minha vida, com a sombra da felicidade antiga que não pode mais ser recuperada.E todas as dúvidas sobre talvez ser possível lutar por essa felicidade.

Você traz água fresca dentro do meu corpo, novos sonhos, novas memórias e fotos. Você significa uma vida que ainda me surpreende e grita poemas na minha cara.

Derramando o sol de um novo sábado na minha barriga.

Você diz que eu posso viver sem dor.

E começar a conhecer quem eu sou quando estou feliz.



tarô não é um jogo de estratégia




E se as pessoas que você conhece forem bem melhores do que você imagina, bem melhores do que você sabe ou pensa que elas são?

Estava conversando com uma amiga ontem sobre leituras de tarô e foi uma conversa bem bonita.

Um conhecido nosso não está fazendo boas leituras de tarô porque ele está dando conselhos que não estão nas cartas, nem são parte de uma interpretação possível daqueles arquétipos mas são pura e simplesmente opiniões dele.

É um uso deturpado do oráculo ou do momento oracular porque além de identificar tendências, como é comum para quem lê cartas, ele está querendo resolver a situação do consulente usando um pensamento estratégico e meio estranho e mesquinho até.

Se um consulente está com problemas ou dificuldades de relacionamento, não cabe a você resolver nada. Muito menos recomendar que a pessoa traia a namorada ou o namorado, por exemplo.

Mas indo mais a fundo, achamos que o uso que ele faz do tarô é um uso estranho, como se o amor sempre fosse um jogo a ser jogado em que precisamos levar a vantagem de saber o que pode ou vai acontecer.

Não é bom viver assim e com certeza não é para isso que usamos um oráculo. Mas o mais interessante é que estamos conversando e pensamos bem parecido, mas não falamos essas coisas para esse tarólogo. E percebemos que muitos dos homens com quem conversamos também não fazem a menor ideia do que pensamos, do quanto já estudamos de determinado assunto, ou do quanto de experiência de vida nós temos.

Fica dado que as mulheres estão sempre em algum lugar de desvantagem, seja essa desvantagem física, moral, intelectual.

E esperamos a oportunidade, e esperamos, ouvimos, porque afinal os homens estão sempre falando mesmo.

Aprendi três coisas sobre o tarô.

Acho que a mais importante foi que estou gostando de alguém e nada, absolutamente nada negativo, apreensivo ou ruim que algum tarólogo me diga sobre ele ou sobre o que sentimos um pelo outro vai me fazer mudar de sentimento.

O tarô ou qualquer consulta não pode ter o efeito de destruir uma vontade legítima de alguém.

A segunda coisa que aprendi com o tarô foi que não é preciso ter todas as respostas. É mais importante viver a vida.

A terceira ou talvez primeira coisa que aprendi é que é possível sim receber respostas nítidas e terapêuticas sobre si e sobre os outros. Sobre a vida e as oportunidades.

Mas quem está vivendo a vida somos nós. E quem está no comando da vida é Deus. Então Deus vem primeiro do que o tarô e a astrologia, Deus vem primeiro como a primeira ajuda.

Depois do Espírito Santo ainda existe a intuição. Depois, a experiência. O tarô vem no final.

Mas não era isso o que eu queria escrever.

Queria escrever um texto sobre chorar de felicidade.



Wednesday, May 10, 2017

Baú de textos antigos IV




27 de outubro, 2010.

O desabafo é importante, meso que ele seja velado, escondido, transfigurado de um outro acontecimento.

É importante tirar do escuro, dar forma aos fantasmas e pássaros que estão guardados.

A escrita é um caminho para se conhecer e para conhecer a Deus.

Deus é uma palavra esvaziada e abstrata, em Deus não cabe Deus.

É importante reconhecer o vazio de algumas palavras para não ser enganado. As palavras têm elasticidade mas uma elasticidade própria, muitas vezes elas são usadas para tentar afirmar ideias que mal se sustentam.

Através das palavras se conhece os jogos dos homens, suas manias de mentir, encenar, fazer de conta, viver de conta, O preço de usar mal as palavras é alto.

O peso da mentira recai sobre o mentiroso. Quando, por algum motivo, o escritor tenta escapar da clareza usando palavras difíceis, argumentações incompletas, as palavras se vingam tornando seu texto estéril, arruinando sua estrutura.

As palavras voltam para quem cuida delas, como pássaros que sabem onde achar comida.

Baú de textos antigos III



26, outubro, 2010.

Faz tempo que não escrevo.

Faz tempo que não escolho desenrolar esse novelo do meu nome.

Criar laços com as palavras.

Receber a visita de quem me escreve.

Ideias brilhantes vieram até mim, várias vezes, repetindo a fé que eu tive nos meus melhores momentos de fé.

E se eu não escrevo (varais de roupa colorida no escuro), se eu não escrevo as roupas coloridas desaparecem para voltar

Em forma de peixe, flor de agosto. Em forma de boné, esteira, cachorro. Em forma de sorriso de amante.

Em forma de súplica de criança triste.

Tivemos uma aula sobre um texto crítico que vê o diário como forma de aprisionar a mulher, já que pais controladores deram diários às suas filhas, pedindo que elas escrevessem, treinando-as para auto-vigilância, querendo podar as possíveis árvores de seus nomes.

Nos diários eu me conheci, conheci meu derramamento em torno da escrita, conheci as vezes em que meu coração partiu, ou esperou ou envelheceu um pouco mais.

Foi por ter escrito diários que eu encontrei o amor por algum esforço literário adolescente, o amor pelos beatniks, que veio quando eu já era inocente de menos.

O que eu esperei era um homem.

O que eu esperei era uma mulher.

Esperei o príncipe para a minha alma e esperei conhecer a mulher que sabe o que é o trapézio.

Hoje me conheço um pouco mais porque foram saltos no escuro da destruição e na luz amanhecida que dizia: "ainda não acabou, aliás, há vários começos."

O diário é um conforto muito grande para mim porque ele me dá esse contato comigo mesma longe do que eu tenho que esconder, manipular. Mesmo que esta seja uma tentativa de me perpetuar bonita, o ser humano não tem o direito de fazer o possível para ser bonito e se sentir assim?

O mundo, os oceanos, as geografias de desertos e montanhas, bosques, vales, geleiras, florestas, o design da borboleta azul e preta que passa seu chapéu mágico pela minha cabeça e segue voando, o mundo, a lava do vulcão e de novo os peixes, o modo como a água do mar bate na areia.

Deus brinca com as nossas expectativas, faz duas pessoas dividirem o mesmo amor, faz uma mãe parir sete filhos, faz o ornitorrinco, que é mamífero e bota ovo, faz o céu vermelho, lilás, azul, amarelo, faz hermafroditas, orquídeas, faz-de-conta.




Baú de textos antigos II



Ato 6

Eu adoro/ eu desprezo as palavras sem sentido

A teimosia em acomodar as preocupações do pensamento

Em gavetas de "liberdade" e "exílio".

A piscina está cheia de cultura

A rua, vigiada, eu saio de casa para ver a sociedade

E a escrita se irrita com análises

E tem alergia à "busca" e ao "resgate"

A escrita escapa dos que dizem "a escrita escapa".

Minha amiga escrita, você nunca me preocupa.

Você me traz a sede que soluça de tanto que bebi vinho.

O poder é uma palavra para quando não dizemos o nome

das famílias e das pessoas que decidem como vamos pagar o que devemos

O poder nunca tem nome. (Mas tem nome)

E tudo me cansa quando não escrevo.

Quando me calo resoluta, resignada à insignificância

de comunicar o amor pelos pássaros

quando ninguém nunca ouviu um canto.

O amor é o fim e o ensinamento

O amor é o juiz e a aprendizagem

O amor sou eu e você agora, juntos

Na folha onde escrevo

Na folha entre os seus dedos

Na folha invisível onde a sua leitura de mim

Inscreve minha passagem na sua mão

Na folha entre eu e você, onde você escreve

com solavancos novidades conhecidas e um grave - ou leve? - frio no coração.




Baú de textos antigos



Ato 5

Conversei com uma pintora

Uma pintora que tem um ateliê quente cheio de luz invisível e de força indígena

Atravessamos a madrugada com a voz de Milton Nascimento

A excelência nos deixa mudas

Eufóricas na delicada exasperação.

A pintora falou sobre a fonte,

A fonte de criar,

A pintora me impressiona com a fonte de criar.

Trocamos fitas e pérolas que decoram jardins de sonho

E países líquidos onde moramos quando não estamos aqui.



Meu território de nuvens é tudo o que tenho.

Já amei escritores estrangeiros, gays, mortos, casados.

Eles me são impossíveis como amantes, meus amantes,

E eu amo a herança que dividiram comigo.

Eu, que fui até Nova Iorque de dentro de um ônibus,

EU, que corri a relva americana do meu quarto,

Eu, o guarda-chuva dos poemas dilatados

onde as palavras se moveram mais do que o cinema,

cantando e dançando como crianças, Molly, Mary and May

e a chuva de amor liberto na alma da escrita.


Eu me desdobro em muitas.

E nasci aqui, por aqui, para você.

Para mim mesma, escritos, vestidos, nomes bonitos

Para quando estou vazia.



Tuesday, May 09, 2017

clubes e favorecimentos


Hoje, em tempos de mídias sociais, somos todos mais ou menos amiguinhos.

Mas até quando lemos e gostamos de um texto pelo texto em si e até quando gostamos desse texto porque foi escrito por um colega que tem a mesma religião e orientação política que nós temos?

O sucesso de alguém parece passar muito mais pelas amizades do que pelo texto em si.

E mesmo que isso seja verdade, lutarei contra a revolta moral até a morte.

Importa escolher bem os inimigos.

Vaidade



Há tanta vaidade quando descobrimos que Deus existe mesmo. Começamos a nos sentir heróis da verdade. Mas a questão é o que fazer com a informação?

O amigo que me levou à conversão fez isso sendo pontual.

Ele sempre chegava na hora e aí eu comecei a perceber que meus amigos que acreditavam em Deus chegavam no horário. E depois comecei a perceber outras coisas que eles faziam que me traziam confiança e segurança.

Ninguém é perfeito, e minha conversão começou assim, por causa dessa pequena atitude: chegar na hora certa nos encontros.

Até hoje esse amigo faz isso. E hoje em dia eu consigo ser uma pessoa pontual. E há um sentimento de alívio nisso. E de paz. Mesmo que pareça moralista, é bom poder se apresentar para os outros como uma pessoa que vai chegar na hora.

Se dizem que nós somos a igreja, precisamos ter esse tipo de firmeza na palavra e nas ações. Precisamos caprichar um pouco. Ter uma atenção vigilante e amar as pessoas. Chegando pontalmente, por exemplo.

A ideia de que as mulheres são rivais + Machismo e Girard



Sempre me incomodou escutar que as mulheres são rivais e competem e não são unidas. Isso é verdade?

Se eu pensar nas amigas da minha mãe, e na corrente que elas formam, nas ajudas que elas disponibilizam uma para a outra, isso é só um mito machista.

As amigas da minha mãe são todas mulheres que sofreram as maiores sacanagens dos ex-maridos. E quando eu digo as maiores sacanagens, pode ter certeza de que eu não estou falando de uma traição simples. Eu estou falando de roubo de dinheiro, de traições pesadas que duraram anos, de maridos que tentaram proibir a esposa de trabalhar e de conflitos que passam longe do espectro de experiência dos meus amigos homens, esses que adoram falar que as mulheres se odeiam.

O que eu vejo é uma rede de solidariedade, essa palavra tão odiosa e repetida nas campanhas do governo. Sim, as amigas da minha mãe se ajudam porque elas enfrentam problemas do arco da velha. Problemas emocionais, financeiros e profissionais que são dilemas morais que dariam um romance de mais de trezentas páginas. Elas precisam dessa rede.

Pensando nas rivais que eu tive pela vida, no entanto, Girard volta à cena. Tive cinco rivais. A primeira era linda e tinha inveja de mim. Eu a odiava e nem a coordenação pedagógica da escola nem a minha mãe que também trabalhava lá conseguiam perceber que eu era inocente. Muitos anos depois ouvi da minha mãe que "vocês eram as duas meninas mais bonitas da escola e se odiavam, claro".

Esse é um problema de má percepção da questão do duplo em Girard. Os rivais tendem sim a se transformarem em duplos um do outro, terminam em dado momento se esquecendo do objeto que disputam e passam a dirigir a hostilidade um contra o outro. Mas esse julgamento de que nós duas éramos ou inocentes ou culpadas parte do princípio de que éramos duplos. Só que assim não há inocente nem culpado, e no caso, eu era inocente. Havia um motivo para eu odiar aquela menina. Ela roubava as minhas piadas e falava mal de mim para outras meninas. Ela armou uma pequena revolta contra mim quando meu desenho foi escolhido como o melhor desenho para a capa de um livro e convencem todas as meninas da sala a se esconderem de mim na hora do intervalo. Isso não é legal. Mas os adultos preferem achar que está tudo bem, são só duas meninas bonitas brigando.

Outro caso de rivalidade em que eu era inocente. Eu era aluna nova em uma escola e a "líder" da sala, a mais bonita e mais forte, veio até minha carteira me dizer que a caneta de uma das meninas tinha sumido e me perguntou se eu a tinha roubado. Ela fez a pergunta com um sorriso nos lábios. E mais tarde viramos rivais também no handball, porque ela nunca tirava o relógio e as pulseiras de ouro e eu saía toda ralada. Um dia eu falei com a coordenadora sobre o assunto. Acho que reclamei disso ou de alguma falta. Sei que nunca mais tivemos problemas. Ela sentiu vergonha da conversa e a tensão entre nós se dissipou para sempre.

Hoje em dia, olhando para quem essas meninas se tornaram, continuo achando que eu tinha toda a razão e toda a inocência nessas situações. E confesso que elas viraram mulheres fortes e ao mesmo tempo que estão meio partidas. Porque elas sofreram pra caralho e estão aí lutando para viver bem.

A terceira rival eu já acho que eu tinha culpa no cartório. Ela era bonita, mais bonita do que eu e fazia muito mais sucesso. Com certeza eu tinha inveja dela e uma vez deixei o pé para ela tropeçar enquanto passava para fora da minha sala. Quase saímos no braço no pátio também outra vez. Não lembro direito o motivo, mas com certeza eu era uma mala invejosa e mesmo ela mantendo uma postura bem esnobe, andando de nariz em pé e essas coisas, acho que eu fui uma idiota de arrumar briga com ela.

Agora o pior mea culpa de todos eu nem consigo fazer. Por inveja, terminei acabando com uma das minhas melhores amizades. Por sorte, fui bem sacaneada também por essa amiga, então a coisa meio que empatou. Queria que nada da confusão desse fim de amizade tivesse acontecido, mas enfim, há coisas que não se remenda tão facilmente.

Fora essas pequenas intrigas da época de pré-adolescência, não tive mais rivais, pelo menos que eu me lembre, depois dos dezoito anos.

Há boatos de que uma das minhas melhores amigas ficou com um namorado meu, mas isso é coisa que nunca vou saber.

De resto, só tive amizades bem legais. E claro que tive problemas com mulheres que me sacanearam no trabalho, mas foram casos sem muita gravidade ou amigas que me sacanearam por inveja e que eu perdoei.

Mas sobre a rivalidade entre mulheres. A rivalidade existe entre seres humanos, como Girard já explicou, e acontece entre pessoas próximas que se admiram e caem em uma rede de sentimentos baixos como inveja, rancor, ciúme, ressentimento e vingança. Isso acontece tanto com homens quanto com mulheres.

Mas também é verdade que vejo muito mais grupos de homens juntos. Jogando futebol, assistindo o desfile das escolas campeãs, saindo para beber cerveja juntos, trabalhando juntos, montando bandas. Os homens sempre se unem mesmo.

E as mulheres?

As mulheres estão aí, soltas e rivalizando porque estão disputando AINDA a proteção de um homem para viver melhor em um mundo construído por homens, controlado, governado e pensado por homens.

Essa é a hipótese sobre a rivalidade entre as mulheres hoje. Se vivêssemos em estado de igualdade, com certeza as mulheres não disputariam tanto os homens para casar, e se disputassem, essa disputa não teria o teor dramático de garantir uma sensação de segurança vital.

Não posso escrever mais porque tenho um monte de coisas para fazer e são todas importantes e cansativas, coisas que vão me ajudar a ganhar dinheiro e a quem sabe não depender de nenhum marido para viver.

PS. Criticam as feministas que querem viver sustentadas por um marido rico. Eu não critico. Se tiver algum marido rico querendo me sustentar, pagar minhas contas para eu ficar escrevendo sobre religião e feminismo até morrer, eu aceito.


Monday, May 01, 2017

Quando não é um segredo nem é simples

Queria todas as palavras descobertas. Mulher não sabe escrever história. Esse texto honestamente não se sente orgulhoso de fracassar. Estou contornando o assunto e cercando as possibilidades. Era uma vez uma mulher com um bom pressentimento. Uma nuvem cor de rosa que cobria os telhados das casas. Uma neblina auspiciosa. A estrela da fortuna e a constelação da boa aventurança. Contra o clima de destruição econômica e política do pais, o coração fatigado recebe um pouco de sol. Está sol dentro do corpo. Atrás dos olhos da mulher.

Noturno

Algumas pessoas demonstram amor dando presente,falando, ouvindo ou prestando um serviço ou um favor. Algumas pessoas demonstram amor de noite.

Thursday, April 20, 2017

Ás de Copas

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Eu preciso transformar essa história em um conto. É a história de uma amiga minha que é muito independente. Aquele tipo de mulher forte, que quando quer dá um grito e quando quer sussurra, que sabe fazer um bolo e sabe desfazer uma bainha, mas que também sabe contar as sílabas de um verso e encontrar um furo em um argumento.

Marina é daquelas mulheres extraordinárias que conhecem a sutileza e a violência, que conhecem amar e perder, que conhecem a hora de oferecer um vinho ou de tocar música cigana ou a hora do samba, o crepúsculo, a flor de maio que só dá em junho e outros segredos.

Há muito tempo atrás eu e minha irmã ficamos hospedadas na casa dela de férias, e estávamos com oito ou doze anos, aquela idade de criança levada e inocente que já pensa sobre o mundo mas sem a fúria e a paixão dos quinze. E choveu muito os dias todos, então para nos divertir nós dançamos valsa com um filhote de gato no cangote e aprendermos a jogar poker com grão de milho. Foi uma das melhores férias.

Uma vez ela me contou uma história e eu disse "nossa, posso roubar?" E ela sorriu e deixou.

É uma história sobre uma mulher muito independente que uma vez precisou consertar um vazamento na pia. E como não era mulher que sai correndo de uma barata, ou deixa uma dívida correr, ela se apressou e foi até a caixa de ferramentas para dar um jeito.

Ao desenrolar o pano que tinha amarrado na torneira para estancar a água, se esqueceu completamente de desligar o registro e, naquele momento, de frente para a torneira, um grande e olímpico jato d'água jorrou direto nela, caindo não em qualquer lugar, mas exatamente no coração.

Às pressas ela conseguiu correr até o quintal e fechar o registro, um pouco alarmada mas orgulhosa e toda molhada, ela parou na frente da pia por um minuto quando ouviu o barulho do telefone tocando.

Foi até a sala, segurou o telefone com cautela.

- Alô?

- Marina, aqui é Eduardo.

- Oi, Eduardo.

- Você sabe de onde eu estou ligando?

- Você está no Rio.

- Como você sabia?

- Você ligou na hora certa.

Vai ser mais ou menos assim o conto. Mas com a segunda parte, quando eles se encontram porque ele já estava na padaria da esquina da casa dela, e não deu tempo de escolher uma roupa.

Marina trocou a camisa pela primeira que encontrou encostada na cama, uma camiseta comprida de dormir, e saiu de saia e botas de cano baixo, cabelo solto, sem bolsa, só com a chave na mão.

Enquanto Eduardo fumava um cigarro na frente da padaria, plantado na calçada como um informante, com o olhar fixo na curva da rua, ele viu chegar uma mulher de saia longa, botinha e camiseta que parecia ter vindo de um bosque escuro e a reconheceu pelo andar elétrico e preciso.

Ela era pequena de longe, e se aproximava num passo que mesmo algum desconhecido podia adivinhar que era contente, como aquelas crianças que a mãe pede para comprar cigarro e vão brincando de pisar na linha e de corda-bamba no meio-fio, ela pisava, misturava com os pés todas as linhas, espalhava areia, assustava as formigas, vinha batucando com os pés a música invisível do coração encharcado.



tenha sempre um amigo poeta



A corte precisava de arte, reis e rainhas queriam espetáculos.

Os professores de literatura discursam sobre a arte inútil com um sorriso no canto dos lábios porque sabem que o espírito mais burocrata ainda poderá sucumbir à tentação de assistir um filminho na solidão do seu quarto de hotel, entre uma viagem de negócios e outra.

Tudo isso é um clichê mas ontem, depois de uma conversa com um amigo que é poeta, lembrei do quanto é raro ter alguém que te escute com muita atenção e carinho e que tenha duas ou três coisas para falar sobre o amor e a coragem.

Primeiro, ninguém sai pela rua se apresentando para as pessoas como "poeta", que hoje em dia parece mais bobo da corte.

Mas não é à toa que o tarô tem uma carta com o número zero, chamada de Bobo ou Louco. E não é à toa que ele acena da beira de um precipício.

Minha vida é cortada por esse pêndulo da ordem e da desordem, da vivência árida e do dilúvio emocional.

E hoje em dia não há muitos poetas à solta pelos bares gritando e esbravejando sobre aqueles assuntos que você não ouve na fila do banco, aqueles assuntos, por exemplo, a vida não é só uma sequência linear e não estamos aqui só para obedecer, sem arte ninguém respira, o coração ama e perde, ama e perde e os amantes nunca se esquecem porque foram moldados no amor.

Essas coisas de poeta. Pessoas meio paternas que te dão um certo tipo de acolhimento específico que vai te apaziguar.

Pessoas que entendem você ter se demitido sem ter outro emprego em vista, pessoas que sabem a dor de uma saudade na quarta-feira de alguém que morreu ou mora em outro estado mas que você sempre leva no coração e com quem queria conversar tomando aquele café.

Poetas conhecem a pressão, conhecem os próprios pecados, as suas próprias indulgências. Sabem que escoraram em alguém e vão escorar em alguém, vão precisar de uma garrafa, de um teto no meio da noite de sexta-feira.

Poetas, aqueles que aos olhos de todo mundo falharam, sustentaram uma loucura triste e ressentida que às vezes é tão alegre e tão certa. Esse pêndulo do Louco que segue a própria verdade e não se pauta pelo que os outros vão pensar. Não segue a carreira que os pais queriam que ele seguisse.

Mas que pode perder um emprego por uma discussão, perder um amigo por uma discussão, perder um amor por uma discussão, porque tem esse temperamento de esbravejar e sente arrepios diante de pensamentos e pessoas medíocres, sente na carne a falta de afeto de toda uma cidade, perde um dente. E pinta uma placa "o poeta precisa de um dente" e conhece a mulher da sua vida assim.

Esse é o tipo de pessoa que vai te ajudar naquelas noites de medo e apreensão. Nas noites em que os medos mais doídos aparecem, vai te estender um copo de conhaque ou um pão com manteiga e um café te olhando no olho.

Com aquele jeito de pirata, de grande lobo do mar da existência, aquele olhar de sobrevivente que ainda sabe que e um náufrago mas que tem sua própria ilha de lembranças e feitos. Sua própria lei e não negocia. Não abre mão do espírito e do coração.

Pessoas que não vão perguntar qual seu trabalho atual, pessoas que sabem de cor alguns versos do Raul Seixas e do Cazuza, homens e mulheres que levaram seu coração para a guerra sem arrependimento. Sem nenhuma ponta de arrependimento e com arrependimentos chorados à noite, derramados em copos de uísque e poemas mal feitos. Ou perfeitos.

Tenha sempre um amigo poeta à sua esquerda e um amigo poeta à sua direita, para te tirar do centro, para te levar para os pés descalços e para os ternos feitos pelo melhor alfaiate da cidade.

Tenha sempre um amigo poeta que olhe sua queda sem nenhuma lição de moral, e que acredite no seu vôo com todo o coração.



Sunday, April 16, 2017

Deus, amor e tentações de Páscoa






Sempre que eu percebi Deus presente em alguma situação, tinha a ver com ritmo, com velocidade e movimento.

Deus aparece nos acontecimentos, através dos animais, no silêncio, algo muda no instante. A percepção sutil e real.

Essa mudança pode ser alguém que chega de repente, pode ser alguém que quase tropeça na rua enquanto atravessa a faixa de pedestre e segura a minha mão, se apoia e vai embora sem que tenhamos trocado um olhar. Deixa apenas a perfeição de se estar presente.

Deus está naquele milésimo de segundo em que atravessando a avenida Consolação, o ônibus não me pegou, mas passou por mim voando.

Deus está presente quando vejo a lua no céu, ou quando me lembro dos primeiros encontros com os melhores amigos,amigas e namorados, a série de condições fortuitas que se encaixaram para que o encontro fosse possível.

O vento ou o silêncio. Um minuto em que os olhos param na estante do sebo e o livro que eu estava precisando é visto.

Deus é um mordomo imperceptível que estende a segunda taça de vinho porque foi com a sua cara.

Deus é o vagabundo que entrou na festa sem ser convidado e que vai beijar a garota mais bonita.

Deus é o primeiro solo de uma cantora lírica, o frenesi do seu corpo ao atingir uma série de notas agudas e dramáticas.

Deus está no corpo de uma adolescente que de um dia para o outro está enorme, seios, coxas e nem ela mesma se reconhece no espelho.

Todos os acontecimentos grandiosos que mudam a vida de tamanho.

Meu coração contente hoje.

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A Páscoa estava cheia de tentações. Primeiro, alguém começou a tocar música do capeta o dia todo. Depois, acabou o gás. E por último, uma garota reclamando da panela que eu não lavei.

Acabei sucumbindo na panela. Falei mal da garota. Devia ter pelo menos me divertido, falei mal dela como alguém covarde, que não é capaz de inventar um apelido, alguém que reclama pouco e com consciência de que aquilo não está certo. Sem a menor virilidade.

Ainda assim deu tudo certo nesse dia.

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Amor,


Meu coração está contente. O amor em estado de puro potencial, apenas um esqueleto desenhado no papel, o personagem ainda sem as roupas, sem corte de cabelo.

Porque assim também o amor é bonito, germinando, uma ideia ainda, um tesouro sem o mapa, um baú vazio, sem as moedas e esmeraldas, ainda esperando no sótão.

Todas as coisas excelentes que passaram por um estado de maturação.

Esses dias pensei que alguém sentou em uma mesa feita por Jesus Cristo. Alguém viu Jesus brincando criança sem saber que era Deus.

Alguém esteve antes da Paixão, antes da ressurreição, alguém foi amigo de seus ancestrais.

Essa linha invisível que está costurando minha vida com a vida de quem amo, os dias em que cantamos a mesma música, na mesma cidade, com horas, meses e anos de distância.

E agora descobrimos que é nossa canção preferida.

Esse tempo que ainda não é perfeito mas já é perfeito. O ensaio antes do sucesso, o beijo antes do sexo.

A noite em que nos arrumamos sem saber que iríamos nos encontrar e escolhemos a roupa no quarto, sem saber que escolheríamos a roupa para um encontro, e não para uma festa. Para um encontro feito de muitos encontros.

O quebra-cabeças, o jogo da memória, a novela, o roteiro, a história em quadrinhos, o filme, a arte de Deus que sorri e nos aproxima.


E assim Ele vai formando casais que vão ter filhos e vai aumentando a humanidade e criando mais gente que vai se encontrar e ter filhos numa sequência excessiva de vida e de amor incompreensível, absurda e perfeita.






Saturday, April 15, 2017

Nós, brasileiros




As ideias desse texto não são só minhas.

Quem somos nós, brasileiros?

Não tivemos uma independência sangrenta, mas tivemos escravos e índios, portugueses, bandeirantes, senhores de escravos, proprietários de terras, clérigos, batalhas, perseguições e extermínio.

A humilhação está nós e eles, entre ricos e pobres, senhores e escravos, brancos e negros, homens e mulheres, adultos e crianças e atravessa nossas relações até hoje. Estamos presos na cordialidade, como fantoches de nós mesmos, de nossa própria covardia. A atitude geral é uma atitude hipócrita porque as ações não estão claras para o outro e perversa porque são atitudes de humilhação.

Depois que terminei esse texto lembrei do ar condicionado no Rio de Janeiro. Está sempre excessivamente frio nos lugares e excessivamente quente lá fora. Mas se o calor justificaria o ar-condicionado, não justifica o ar-condicionado ser absurdamente gelado.

E eu acho que é porque os brasileieros têm medo de que comece a fazer calor e alguém comece a suar e seja possível sentir o cheiro desse suor, que é uma coisa nojenta para muitas pessoas mas também é a marca da existência de uma outra pessoa, uma marca concreta, "ali tem alguém que não sou eu e que está suando."

Sem a mediação da cerveja e do carnaval, quando brancos e negros ocupam o mesmo espaço público, o que aconteceria aqui entre brancos e negros,ricos e pobres?

Há muitos anos atrás uma amiga comentava que não suportava small talk. Eu mesma nunca suportei ficar conversando sobre o nada, preenchendo as colunas do ar.

E o que é essa conversa sobre o nada? O que os brasileiros estão evitando quando passam quarenta minutos falando de cerveja e cachaça?

O que os brasileiros estão evitando quando passam meia hora discutindo futebol?

Alguém poderia dizer "você, que é mulher, não vê sentido nas coisas porque você nunca foi ao estádio, não conheceu a seleção dos anos de ouro do Botafogo".

"Você só pensa nos seus amores e fantasias românticas, você não entende os dilemas de uma escalação, uma falta na grande área, um árbitro corrupto, uma vitória do Corinthians aos 42 minutos do segundo tempo".

Ao contrário, é justamente o sentimento, o sentimento de vitória e de alegria desse gol, é justamente o sentimento que está na conversa mas não está na conversa. Mas por que o sentimento não está na conversa?

Nessa conversa de bar enquanto bebemos cerveja e os paulistas falam de filmes e livros, os mineiros de queijo e caldinho, os cariocas de futebol e política, o que está acontecendo que não está acontecendo?

O brasileiro tomou a cordialidade como um modo de vida, um invólucro que abarca seu comportamento total. O brasileiro se apresenta como alguém cool, alguém tranquilo que não se estressa, que não reclama, que é de bem com a vida, mas essa é a máscara.

Somos um país de assassinos e corruptos, um país onde gays, negros e mulheres estão sendo assassinados massivamente.

Um país que muitos estrangeiros não entendem, onde muitos estrangeiros não vão se adaptar nunca.

Mas continuamos insistindo em ser "de boa", continuamos sorrindo, sendo educados, fugindo da escuta ativa, fugindo do outro. Não brigamos com ninguém, mas nos importamos realmente com alguém que não está dentro do nosso clubinho especial?

Rapidamente fugimos como ratos para pequenos grupos de pessoas que pensam como nós para nunca vivenciar o desprazer de estar errado, de reconhecer que o que dissemos pode estar errado, incompleto ou pode não fazer sentido para alguém. Nos refugiamos covardemente entre nossos semelhantes, na igreja, no partido, na universidade, no grupo de corrida, com o pessoal do batuque, na academia.

Nos escondemos de alguém que pense diferente de nós. E se a convivência nos obriga a compartilhar o mesmo teto com alguém, momentaneamente a mesma sala, falamos mal dessa pessoa, fazemos piadas e restauramos o frágil senso de superioridade.

Somos brasileiros, ou seja, violentos, falsos, fingimos simpatia mas não conhecemos o amor, não estendemos a mão, só mandamos um abraço.

Terminamos e-mails com "um abraço", mas esse abraço nós nunca vamos dar.

É só uma formalidade carinhosa e fundada na mentira. Ninguém se beija direito, nem se encosta direito, mas gostamos de dizer e de acreditar que somos um povo caloroso.

Anos sem calor humano, os jovens ainda procuram raves, jogos de futebol, shows de música, mas os espaços de convivência são cada vez mais escassos. A vida adulta vira uma vida sem contato físico. Com beijos em que você não é sequer beijado direito e amizades falsas, com pessoas que não conseguem te convidar para um café, cumprir o combinado, abrir a porta na hora, colocar a água para ferver e fazer o café acontecer.

Somos nosso próprio Polo Norte emocional, incapazes de dar carona sem cobrar, mesquinhos, invejosos.

Nossa incapacidade de amar vem de um acordo tácito de violência que os brancos sustentam até hoje. Vamos te humilhar, mas será sutil. Você não vai saber se é por causa da sua cor, da sua classe, se é por você ser pobre, mulher, gay, por você ter menos dinheiro ou não ter nossas referências culturais, se é por você ser estrangeiro, ou de outra cidade, mas a humilhação será nossa forma de convivência.

Fazemos do nosso papel de perseguidor nossa identidade. Ninguém se desarma, ninguém se acolhe, as tentativas são pequenas e torpes. As tentativas de carinho acontecem depois de milhares de micro-humilhações contra o outro. Até que chega uma hora em que ficou tão feio, tão flagrante que você está agindo como se fosse superior que, vendo que o outro já está destruído, nós retrocedemos na violência e dizemos alguma coisa amável, fazemos um elogio, um convite, só que o gesto continua revelando a perversidade.

Não somos bonitos, não sabemos nos desarmar. A maior parte das pessoas acha normal viver sem ser abraçada e beijada pelos amigos, sem ser adotada pela família dos amigos, sem amor. A maioria das pessoas acha que não ter mais de três pessoas para chamar para o aniversário é normal, mas não é normal. E não é normal que todos estejam tão sozinhos, passando por depressão sozinhos, passando por tentativas de suicídio sozinhos, desistindo da pós graduação sozinhos, deixando de escrever sozinhos.

Tenho amigos de verdade, mas já rodei um pouco do Brasil para entender que somos aqueles que justificam sua falta de sentimento dizendo "mas Minas não é o Brasil", "mas o rio não é o Brasil", "mas São Paulo não é o Brasil", "mas o Sul não é o Brasil" então o Brasil nunca está, nunca é da nossa responsabilidade olhar no espelho.

E isso é triste porque estamos perdendo boa parte da graça da vida nesse jogo de ser o superior e humilhar sutilmente o outro.

Estamos perdendo a chance de ouvir o que uma mulher inteligente tem para falar sem querer destruí-la em um debate, estamos deixando de conhecer pessoas que vieram de outras cidades e de outros países porque temos medo que descubram que funcionamos assim, escondendo sentimento e humilhando o maior número de pessoas possível. Odiamos os outros pela simples possibilidade de que eles nos ultrapassem no conhecimento de qualquer coisa.

Num país racista e corrupto, passamos o tempo criando alianças e violentando quem pensa diferente de nós porque nossa própria sobrevivência, nosso ganha-pão passa por essa proteção das turmas, por essa rede infinda de favorecimentos e pequenas corrupções, financeiras, espirituais.

Então aceitamos que não seremos tão humanos assim, vamos continuar medíocres e perversos, destruindo os mais fracos e assegurando nosso salário. É quase como se não humilhar significasse a morte, já que tudo é regido pela lógica do favorecimento e da corrupção e se você discordar de alguém que você gosta isso pode significar perder um emprego, acabar com a sua carreira.

A questão é que perdemos a riqueza da experiência humana, ser ajudado, ser ouvido, ser compreendido, fazer ciência e descobertas conjuntamente, sem competição, mas com colaboração.

Perdemos a possibilidade de amar fazendo das relações um tribunal para culpar o outro e criticar o outro/a outra o tempo todo.

Fazemos da aproximação com o estrangeiro, com o diferente, com as mulheres, os gays, os negros, os mais pobres do que nós um tabu.

Somos ridículos, mas sem comédia.

Porque esse foi o acordo, continuar humilhando o subalterno para que ele não se revolte. Garantir seu próprio lugar ao sol.

E assim continuamos reinando na miséria espiritual e satânica da mentira.

Qualquer gesto de amor, vindo de um brasileiro, é revolucionário.



Friday, April 07, 2017

Cada namorado é um país



Era uma noite na rua Mourato Coelho há mais de quinze anos atrás e eu escutei um amigo dizer que uma amiga nossa estava namorando um cara que "era tudo o que ela queria ser".

Foi um comentário ácido. E na hora eu achei que fazia sentido. O tal cara tinha um apelido que era suficientemente infantil para provocar uma pontinha de ódio em mim, era lindo e tinha cara de filho da puta.

Eu lembro da primeira vez que o vi. O tipo de cara para quem eu nem existia. Eu tinha dezessete anos e saía de noite de rabo de cavalo, uma camiseta preta justa e desbotada da Hering, uma calça jeans cintura baixa e um tênis de vendedor de pulseirinha, daqueles que estendem a mercadoria em cima de uma canga na rua. Era um tênis bem baixo, tipo um conga, mas com o cadarço típico de um duende dos Senhor dos Anéis.

Ou então eu saia de all star vermelho de cano baixo. Essa era o retrato da artista quando jovem aos dezessete anos. Se estivesse frio, eu vestia uma camisa do meu pai por cima. Esse era basicamente o meu uniforme social.

O cara tinha cabelo fino cortado meio estilo vocalista do Oasis, e estava tocando uma guitarra vermelha. O braço dele era bem bonito, a altura perfeita, o tipo de cara que só de passar as mulheres já queriam tirar a roupa.

Mas o sorriso dele. Ah, o sorriso dele era meio satânico. Era um sorriso de quem diz "tenho todas as drogas e já usei tudo, acabou". Um sorriso que quem está pensando "ah, eu sei que eu estou gostoso, já me disseram isso tantas vezes mas sempre me diverte".

Enfim, tinha algo estranho naquele cara, ele tinha uma aura de filho da puta, de um filho da puta profissional que nem era muito sacana, era apenas um pirata da noite, sem espada, sem nenhum conhecimento náutico, mas que ele estava ali, navegando e traficando.

E essa amiga era um ídolo pra mim. Uma garota cheia de tatuagens que se vestia bem e ia em todos os shows, bebia muito e ficava com vários caras. Aquilo era vida. O resto eu já tinha com os livros.

Bom, a garota das tatuagens estava namorando o guitarrista putão. E os dois eram músicos, mas ele tinha mais estrada, mais idade, mais dinheiro, mais fama etc. Era isso. Esse casal não está mais junto, isso já faz muito tempo.

E esse amigo me disse que ela estava namorando um cara que era tudo o que ela queria ser, músico e tarado, rico e famoso e tal. Era um comentário sinistro pra mim.

Isso me lembrou a história da Maria Guitarra, alias, ex-Maria Guitarra, aquela amiga que aprendeu violão e parou de se apaixonar por músicos.

Tem uma parte meio insana de se apaixonar que passa por isso, você começa a admirar tanto a pessoa que você quer ser quem ela é.

Girard fala sobre isso, essa é a parte das relações de proximidade que tem o maior potencial para virar um grande bolo de merda. Afinal nunca dá muito certo você querer ser outra pessoa.

Eu passei por isso uma vez. Me apaixonei por um cara que era tudo o que eu queria ser. Que situação de merda. Hoje eu acho que esse ex perdeu um pouco da força vital e da mágica que ele tinha e isso é meio triste. Tem espaço no meu coração se ele quiser passar uma noite lá. Afinal ninguém precisa desgostar de ninguém amável.

Mas enfim, tudo isso pra dizer que cada namorado é um país, você começa a namorar um cara e junto com ele vem uma bagagem, ele chega no porto da sua vida com duas malas cheias e uma mochila nas costas, e você vai descobrindo o que tem dentro da bagagem aos poucos.

Os cd's e vinis que ele escuta, os livros que leu, os escritores preferidos e ídolos, a religião ou o ateísmo dele, os traumas e a relação com os pais, os amigos, os gatos, os cachorros e tudo isso que é da vida de alguém.

E aos poucos você vai conhecendo o uniforme dele também porque as pessoas sempre têm uma roupa que elas usam mais, a que elas mais gostam, as roupas que ferem menos a alma e que traduzem melhor quem elas são ou só caem bem no corpo mesmo.

E namorar é um pouco como mudar de país, você ainda tem a sua nacionalidade mas você adquire a dupla nacionalidade do namorado, porque começa a conhecer o país onde ele mora.

Basicamente, os caras interessantes que eu conheci era de três tipos. Muito brasileiros, estrangeiros, mestiços e perdidos, ou moravam mentalmente em algum país como Índia, Brasil, Colômbia, Inglaterra e Estados Unidos.

Viajar para os países de namorados é divertido. Algumas pessoas escolhem outra pátria como escolhem uma religião e daí surge um deslocamento profundo que um esquerdista odeia e um direitista ama.

O pessoal de esquerda adora estar no Brasil e o pessoal de direita geralmente já mora mentalmente exilado em outro lugar. Ok, foi só uma generalização, não precisa chorar.

E essa a teoria de hoje, cada namorado é um país.

Eu mesma já fui uma exilada no Brasil e já fui uma brasileira apresentada à minha própria nação.

O que tenho para apresentar hoje é uma mistura de congado com joy division. E assim, isso não é um elogio ao Oswald de Andrade nem ao Silviano Santiago, faço questão de esclarecer.

É apenas a vida, em sua exuberância irônica e maravilhosa.

Quando eu conheço um cara interessante eu fico louca para partir para a terra dele e fundar nosso modesto latifúndio cultural, unindo as referências, roupas, gerações.

Fico querendo acordar e vestir uma camiseta dele que vai estar me esperando embaixo do travesseiro porque ele me ama e aceitou com resignação que aquela roupa agora é mais minha do que dele e todas essas coisas que dos quinze até os noventa anos são legais e adoráveis como preparar e receber café na cama, assistir filme junto e ver a pessoa dormindo e morrer de amor.




Wednesday, April 05, 2017

Alberto Caeiro destruidor de lares




A rua está calma então Lorena tem certeza de que é sábado, os carros passam sobre o asfalto num vai e vem que sugere o barulho do mar.

Pneus raspando no asfalto e um tilintar elétrico de aceleração, freio, direção hidráulica, alarme e vozes de porteiro e síndica que se cumprimentam alegremente porque é sábado e afinal nem todo mundo se odeia.

De repente o sol começa a ficar mais forte e a invadir as cortinas da varanda, venta de leve, início de abril, estamos no outono em São Paulo, está frio e quente ao mesmo tempo, muito quente sob o sol e muito frio na sombra.

Cachecóis e óculos escuros saindo e entrando nas bolsas das mulheres, o som do salto das botas faz um estalo gostoso na rua mas não dá para escutar por causa do trânsito. Só se alguém chegar de madrugada caminhando na calçada.

Hoje não, hoje está tudo calmo. Lorena vai para a varanda para ver o sol e sentir o frio.

Um carro prata está saindo da garagem do prédio vizinho e acaba de bater no carro preto que vinha vindo tranquilamente e agora um sábado poético acaba de se tornar um pequeno inferno e um desafio entre a civilidade e a barbárie, Satã e o Cristo, o melhor e o pior do ser humano.

Essa batida lembra Lorena de outro acidente de carro, mais antigo, quando aconteceu o término de seu primeiro namoro.

Foi tudo culpa de Alberto Caeiro, mesmo que indiretamente.

Lorena costumava andar, aos dezenove anos, com seus livros preferidos na bolsa e nessa noite era a poesia completa de Fernando Pessoa. Como toda a boa adolescente, Lóri tinha se apaixonado por Alberto Caeiro e estava cansada como ele, de tudo, praticamente, e achando o máximo aquela sinceridade de poeta que ela nunca tinha visto.

Então resolveu recitar um poema de Caeiro no carro enquanto o namorado dirigia. Foi o suficiente para que ele batesse o carro.

Foi uma batida leve, mas deixou o motorista e Lorena muito nervosos. Extremamente esgotados da existência na terra e cheios de ira e frustração. Lorena acreditava piamente que era inadmissível que seu namorado não gostasse de poesia, Hugo, ao contrário, não entendia o porquê de Lorena recitar poesia quando ele estava guiando e não poderia portanto prestar a vaga atenção.

Era uma situação irritante, e no meio da discussão Hugo soltou um "Eu não me importo com esse Roberto Camelo"

Foi o fim. Alberto Caeiro riu de dentro de sua cova imaginária e Lorena riria depois, anos depois, lembrando daquele acidente.

Mas não era só a falta de poesia, era simplesmente a falta de poesia. Aquele relacionamento de horas contadas, de horário corretos, de sobremesa sempre depois da comida.

A morbidez da falta de criatividade, a violência que uma pessoa previsível comete, - simplesmente por existir- contra uma pessoa mais artística.

Porque afinal os terapeutas sempre vão defender o indivíduo pró-ativo, produtivo, integrado socialmente, aquele que paga as suas contas e assiste televisão no domingo.

Mas quem vai defender as jovens imprudentes, que ainda são puras e sustentam uma dose quase ridícula de malicia ou desobediência, mas que preferem mil vezes uma carona de bicicleta do que um carro importado, que dariam tudo por uma noite não dormida cheia de vaga-lumes.

Hugo era o porto seguro, o casamento perfeito, o preferido de sua mãe e sempre seria. Hugo era um cara legal que às vezes Lorena chamava de "uma boa pessoa".

Se algum cabeludo aparecesse recitando Bukowski, seria o fim da relação, mas foi uma batida curta de carro, um desentendimento, e de repente Roberto Camelo selou a sepultura daquele amor.

E Alberto Caeiro sorriu e continuou cansado. Do que, não sabia, mas de nada adiantaria sabê-lo, pois o cansaço fica na mesma e a ferida dói como dói e não em função da causa que a produz.



Um texto sobre a felicidade entre duas mulheres






Estava mexendo em algumas fotos antigas e achei essa imagem, uma foto dos meus pés numa esquina fotografados por uma amiga que deixou só as pontas dos pés na base da imagem, como assinatura.

Eu sinto falta de livros que falam sobre amizade entre mulheres. Acho que eu não tenho encontrado os livros certos ultimamente.

Se fizessem um concurso para ver quem conhece as mulheres mais legais do mundo eu teria ganho.

Não acredito que existam mulheres mais bonitas, legais e maravilhosas do que as minhas melhores amigas.

A trapezista louca que escreve com o coração sangrando segurando uma sombrinha na corda-bamba e com uma águia pousada no ombro,

A escritora astróloga que escreve em moleskines de papel reciclado cobertos de capa de pano onde ela desenha macacos fazendo careta,

E a pianista que ouve heavy metal enquanto se apaixona pelo corte de um vestido e escreve como uma alemã em viagem pelo Brasil, com aquela precisão de quem domina as regras da língua e um senso de aventura estrangeiro para o leitor comum.

Eu sempre tive a impressão de que os livros eram de mentira e contavam histórias de mentira pra boi dormir.

Até hoje eu tenho essa impressão. São poucos os livros que foram escritos de verdade, por pessoas de verdade que podiam dar uma gargalhada tranquilas no meio de uma festa.

O critério é esse mesmo. São duas da manhã, não vou mudar o critério agora.

Por alguns meses eu e a trapezista moramos juntas. Eu quase não conseguia trabalhar. Era minha culpa, ela conseguia trabalhar e voltar a tocar violão. Eu não conseguia. A vida estava muito divertida com ela, eu queria aproveitar.

Sinto uma ponta de culpa porque acho que a gente poderia ter rendido mais naquele freela, mas sinto muito orgulho das lições de violão.

Ela vibrava com cada coisa que aprendia, e eu me divertia demais mostrando que era possível tocar uma música com dois acordes. Sem pestana. Ou me divertia quando ela encontrava uma pestana em alguma canção do legião e ficava triste.

Ai aquilo partia o meu coração mas comigo foi a mesma coisa. Você odeia pestana no começo. Pestana é quando você tem que colocar um dedo inteiro prendendo as cordas no violão e dói a mão e não sai som nenhum do acorde.

Aqueles dias de aprender e ensinar violão tinham a eletricidade do infinito, o êxtase de quem assiste uma queima de fogos pela primeira vez.

Tudo começou porque ela estava me mostrando um dueto no youtube e disse "olha esse cara aí, a gente se conheceu num show..." e continuou a contar a história do encontro deles em um bar, da troca de olhares, do frio daquela noite, do calor do beijo mas no final ela disse assim "eu era a maior maria-guitarra naquela época."

Eu nem tinha ouvido falar que existia essa expressão. "Maria-guitarra" era uma garota que só se apaixonava por cara que tocasse violão.

Bom, ai eu fiz a pergunta feminista de um milhão de dólares: "E você, já pensou em tocar violão?"

Ela contou que começou a aprender e que o irmão tirava muito sarro da cara dela na época e que ela ficou muito triste com isso e claro que eu perguntei. "Mas você quer aprender a tocar violão?" E ela disse "Sim, quero!" e depois de três dias ela era a mulher mais feliz da terra e eu também e a gente quase não conseguiu terminar um freela.

Eu queria contar que eu faço essas coisas. Acho que essa é a melhor propaganda das minhas atividades profissionais. Eu sou aquela professora feminista que ensina mulheres a pararem que ser Maria-guitarra e a tocarem violão e conquistarem o mundo e claro, deixarem homens caídos a seus pés.

Com certeza esse foi o meu ponto alto do ano passado.

Daí vem um grande professor cristão, um intelectual renomado falar mal de feminismo na internet e faz aquele textão e ganha um monte de aplausos de seus coleguinhas e fãns na caixa de comentário.

E só dá vontade de olhar pra ele e dizer, "Eu enquanto você tá aí falando mal de feminismo eu estou ensinando uma amiga a tocar violão."

De quem você acha que Deus gosta mais?

Muuhahahaha.

Ok, Deus ama todo mundo mas a frase fica mais legal com essa provocação.




Mulheres lutando contra a inveja






Hoje terminei Dostoiévski: do duplo à unidade, do René Girard. Depois fiquei pensando na falta de livros escritos por mulheres/escritoras.

Séculos de livros escritos por homens, com histórias de homens, batalhas, guerras, e mulheres submissas e loucas.

O que buscamos nos livros escritos por homens sobre as mulheres? O que acabamos encontrando?

Dia desses percebi que dois amigos meus, ultra intelectuais só falam no nome de alguma mulher para criticar. Acho que eles mesmos não percebem que isso acontece. Mas eu reparo muito bem.

Fiquei lembrando de um texto da Louise Westling que fala sobre escritoras que leram muitos livros de escritores e como isso afetou a escrita e a percepção de mundo que elas tinham. Escritoras com modelos masculinos de escrita. O que elas escreveram? Existe modelo masculino de escrita? Não? Se alguém falar em escrita feminina leva ferro.

Mas isso demora muito tempo para discutir, e eu estava dizendo que há muitos livros escritos por homens e neles as mulheres são seres pouco pensantes e muito sofridos. Então livros escritos por homens cheios de mocinhas burrinhas e confusas não são o melhor referencial para jovens leitoras possivelmente escritoras. Nenhuma grande escritora quer se espelhar em uma dona de casa oprimida pelo marido.

Toda essa discussão sobre a obra de Dostoiévski e o orgulho. Mas e se fosse uma mulher escrevendo?

E se fosse uma mulher se debatendo contra o próprio orgulho?

E se fosse uma mulher sofrendo com a inveja de outras mulheres e de outros homens?

Muitas mulheres devem ter escrito romances em que elas puderam refletir sobre esses temas, inveja, orgulho, ciúme, ressentimento, sentir-se superior ou inferior a alguém, ser humilhado, humilhar.

Mas o que mais me chamou a atenção hoje foi que tive duas conversas por telefone, uma ontem e uma hoje com grandes amigas, aquelas amigas que já posso considerar irmãs para o resto da vida, e as duas estavam vivendo problemas que envolvem a inveja de outras pessoas.

Desde que meu pai disse que cada dia é um enigma a ser decifrado e desde que eu soube que a Oprah tinha um ritual de escrever em um caderno o que ela tinha aprendido a cada dia eu fiquei pensando nisso, nos meus diários, em retomar isso.

Porque cada dia às vezes parece um quebra-cabeças.

A inveja entre as mulheres pode parecer igual mas acho que ela tem alguns aspectos e sombras bem particulares. Isso porque a socialização dos homens e das mulheres é diferente. Não vou me estender nisso, pelo amor de Deus. Qualquer livro do tipo feminismo para iniciantes explica essa questão, isso quer dizer "a vida para um homem é diferente da vida para uma mulher", ponto final.

Tanto a inveja entre mãe e filha quando a inveja entre irmãs e entre duas amigas tem um lado perfeitamente normal, não patológico, que acho que são os momentos em que a mãe sente inveja da filha que está adolescente, na flor da idade, linda, com o corpo exuberante ou quando a filha sente inveja da sabedoria da mãe e da atenção que o pai dá para a mãe ou da amizade entre a irmã/o irmão e a mãe.

Mas há mães que realmente derrapam para o patológico e começam a podar a criatividade, a expressão, a vida sexual, social, e a energia e confiança da filha por conta dessa inveja.

Entre irmãs, a mesma coisa. Há um nível de competição e inveja normais, em que as irmãs podem competir pela atenção e afeto dos pais ou ficar se comparando, mas há também um nível terrível e violento, quando uma das irmãs começa a perseguir e causar danos concretos à outra irmã.

A mesma coisa entre amigas, quando uma das amigas envolvida em um triângulo mimético decide seduzir justamente o rapaz por quem a amiga se apaixonou ou aprontar coisas piores como começar a criticar a amiga repetidamente, difamar a amiga, fazer fofoca sobre a amiga etc.

Por um lado há o limite da consciência moral de cada uma das mulheres envolvidas na relação, e as referências de moralidade que elas vão usar para pautar suas ações. E a consciência de cada uma e o subsolo de cada uma.

Por outro lado, existe toda uma gama de patologias e sintomas como aspectos de perversidade, narcisismo e psicopatia que deixam a questão do subsolo dostoiévskiano ainda mais sombria quando pensamos na inveja entre mulheres.

Ou será que o sadismo e o masoquismo ainda são as instâncias em jogo aqui e essas patologias são apenas aspectos da figura do sádico/sádica?

Engraçado que sempre dizem que as mulheres têm inveja do pênis ou que as mulheres invejam outras mulheres, mas o assunto não avança.

A inveja entre as mulheres é um assunto muito sério.

E a inveja de que são alvo as mulheres bonitas também é um assunto que não vi muito comentado por aí.

Tive uma amiga muito bonita, bonita mesmo, estupidamente bonita, e ela sofria muito.

Ela acabou desenvolvendo um jeito masculino, cabelo curto, gestos retos, postura com a coluna curvada, poucos sorrisos.

Ela me lembrava um soldado às vezes quando saiamos na rua ou para alguma boate.

Hoje ela continua bonita. Mas as histórias que ela me contava de interrupções na rua, no metrô, assaltos, assédios, era toda uma vida infernal que ela tinha, uma vida paralela infernal de violências e ameaças à sua integridade por conta de algo que não dependia dela, ser bonita. Como se houvesse um preço a ser pago. "1) Você é bonita, 2) isso nos causa inveja e 3) você vai ter que pagar por esse incômodo que está causando."

E com o tempo ela foi sempre pedindo para que a gente se encontrasse na casa dela. Eu odiava isso mas agora eu entendo melhor.

Não sei se teve a ver com isso. Mas acho que teve.

Já ouvi de outra amiga muito bonita que ela tinha parado de sair de casa por causa do assédio. Assédio é uma palavra meio neutra, mas isso quer dizer que tanto homem mexia com ela na rua (mexer na rua quer dizer ameaçar alguém que não aceita xingamento com a possibilidade de um estupro) que ela começou a ter pavor de sair de casa.

Antes as mulheres eram propriedade do marido e viviam trancadas em casa.

Depois as mulheres puderam sair e trabalhar, e os homens começaram a ameaçá-las de estupro nas ruas e elas começaram a voltar para dentro de casa.

Não todas as mulheres, as mais bonitas, as que sofreram mais assédio, as mulheres comuns que sofreram assédios graves e repetidos etc.

Girard disse que o bode expiatório pode ser alguém que se destaca por algum estigma mas pode ser alguém que se destaque como superior ao grupo, por brilhar mais do que a média, por assim dizer.

As mulheres bonitas são um duplo alvo de violência então, primeiro por serem mulheres, depois por serem mais atraentes, e por isso, chamarem mais a atenção e despertarem mais a violência dos outros. Em homens agressores ou em mulheres menos atraentes ou igualmente atraentes.

É engraçado que só a ideia de pensar em escrever um texto em defesa da inocência das mulheres bonitas já me faz prever uma multidão irada se formando.

Nesse tempo em que todos disputam o papel da vitima, as mulheres bonitas não serão as primeiras da fila, mas nem por isso deixam de continuar inocentes.

E continuam precisando aprender a desenvolver estratégias de sobrevivência, até estratégias para não enlouquecer.

Você nasce bonita e uma vida de violência está garantida para você.

Riscos de assédio sexual na infância, estupro, pessoas duvidando da sua capacidade intelectual, te perseguindo e mexendo com você na rua, isso durante a sua vida inteira e depois quando você começar a envelhecer, as pessoas vão começar a falar que você já foi bonita, que você era linda quando era mais jovem e que agora está um caco.

E isso porque nem começamos a falar sobre as mulheres não tão atraentes. O que será que elas passam?

Eu, que não sou muito feia, posso dizer que a vida não tem sido um mar de rosas. Está mais para uma piscina de farpas e sangue.

Mas com algumas vitórias. Com alguns sorrisos secretos. Com a estranha teimosia de quem não vai se curvar.

Talvez esteja chegando o momento de falar sobre o que eu tenho vivido, sobre a inveja e como a inveja marcou a minha vida.

Mas como dizer que você foi invejada sem cair na tentação de ser ou de se apresentar como uma vitima ou como um herói?

Mas e se não for uma tentação?

Mas e se for uma tentação?

Então talvez só escrevendo um romance eu chegue perto do problema. Um romance bem romanesco do ponto de vista de uma mulher cheia de inveja e que foi muito invejada, durante anos, até quase a loucura.

Eu não sei você, mas eu preciso de um drink.

Pensando em sinais vitimários, o que torna uma mulher escolhida como aquela que será assediada, já que todas as mulheres passam na rua e algumas são assediadas e outras não?

A auto-ajuda diria que é a vibração da pessoa e que ela atraiu esse evento, esse assédio para si por conta de traumas de infância não elaborados.

Mas e o cristianismo?

O que o padre diria sobre um homem que chama uma mulher de potranca na entrada do metrô? Que ele está tomado pela luxúria?

O que um padre teria para dizer a uma mulher bonita que vai sofrer assédio dos cinco aos 45 anos?

Como preparar uma mulher para quarenta anos de violência diária sem que ela queira se matar ou matar alguém?


Eu não sei.

Friday, March 17, 2017

Eu não quero mais brincar de mestre e escravo



Estou lendo um artigo para a tese e encontro a seguinte frase:"As the lover, each is a slave; as the beloved, each is a tyrant"

Eu não quero mais brincar de master and servant, eu não quero mais ser a "apaixonada escravizada" nem a "mulher amada tirana".

Eu não quero mais esse jogo.

Mas ele continua acontecendo, milhares de vezes, no trabalho, nos encontros, nos livros que leio e nas teorias que eu estudo.

E eu não quero mais brincar disso.

Não quero mais.

Thursday, March 16, 2017

você vai ter que ir sozinha



Lorena olha através da câmera para Bruno.

Atrás dos olhos dele é possível sentir um desconforto invisível. Seus olhos estão se movendo no céu sem estrelas.

Os olhos de Lorena também estão manchados, esvaziados de cor. São olhos tristes. A tristeza passou por ali e deixou uma assinatura na retina, riscou seu nome e deixou uma sombra.

Estes são lugares onde ninguém pode ir, o avesso dos olhos de alguém, o centro do coração cheio de bolor.

Há tantos segredos que Lorena gostaria de contar para Bruno, arrastar, puxá-lo pelo braço para ver o mundo que ela vê, os animais se manifestando, a luz do sol entrando no quarto e também a luz, até a luz da tarde era uma prova e uma companhia.

Cada palavra sobre Deus soa cada vez mais odiosa. Como contar de uma viagem para a Europa, não tem a menor graça para quem não foi.

É assim. Aquela mulher à sua frente, cheia de si, bonita, inteligente, colecionando mentiras, fantasias e projeções sem o menor fundamento, expressando o castelo de cartas de uma carência antiga, não faz nenhuma das suas veias tremer.

E com certa elegância ele arranca toda essa planta que não vai mais crescer do meio deles, essa planta que já está morta.

Não tem resposta, não é nada do que você fez ou é, essas coisas que a gente não controla.

Para este lugar que é a sua vida agora você vai ter que ir sozinha.

Para a sua defesa de tese, para a sua morte, para o seu quarto antes de dormir, para todos os minutos que sobram dentro da sua carne você vai ter que ir sozinha, dar essa aula, trabalhar hoje, falar com seu chefe e pedir desculpas, escrever de madrugada e voltar a gostar de si.

Acreditar que você vai continuar a pesquisa.

Dormir, correr até a dor passar.

Para todos esses lugares você vai ter que ir sozinha.

Isso me lembra de um milagre muito bonito que eu ouvi uma vez de uma psicóloga que estava há muito tempo separada do marido, e era algum dia muito difícil porque ela estava andando sozinha por uma rua comprida e arborizada de Belo Horizonte, e essa dor era tão forte que parecia trincar todos os seus ossos.

Mas no meio do caminho, ela escutou uma voz dentro da sua cabeça que disse com toda a clareza 'Você não está sozinha', e ela começou a chorar e sentou e chorou chorou e chorou na calçada de alívio.

E quando ela se levantou, duas borboletas começaram a segui-la no caminho.

Porque Deus quando está chegando ele traz os animais com ele, as borboletas, os pássaros, os grilos, os gatos e os cachorros.

Deus assina sua presença assim, com a luz da tarde, com o cheiro de flores, com o vôo dos pássaros, com o silêncio, e até com as palavras claras e honestas de alguém que acaba de dizer que não te ama.

Deus está aqui, no coração que se machuca mais uma vez e continua vivo, no coração de uma mulher escrevendo sozinha perto da favela, ouvindo um tiro seco no meio da noite.




Medeia matou os filhos por causa de um fora (?)



Meu pai disse outro dia que cada dia é um enigma a ser decifrado.

O enigma de hoje dói muito. Não é só o enigma de não ser amada por Bernardo, porque você não pode forçar um cristão a ser feminista, ou um cara de esquerda a acreditar em Deus, ou um homem se apaixonar por você.

Mas essa coincidência de ter ido assistir uma aula sobre Medeia e chegar em casa e tomar um fora exatamente como ela, essa coincidência guarda uma chave, uma chave que daria um livro.

Os escritores negros dos anos 1970 nos Estados Unidos, o pessoal que fazia arte em bares, declamando poemas ao lado de um músico que tocava saxofone, inventando coreografias com meia e polaina, black power e fúria, alguns deles sabiam que a palavra é mágica.

A escrita é profética e a palavra é mágica. Qualquer idiota da auto-ajuda e da programação neurolinguística vai dizer que segundo a física quântica, tudo o que falamos fica plasmado.

Qualquer avó do interior tem essa sabedoria da palavra. Os feitiços são feitos com palavras, as orações, os sacramentos.

As leis, a poesia, que é nossa forma de não degenerar completamente.

As bulas de remédios, os bilhetes para seu grande amor no colégio, tudo o que é importante passa por essa dimensão aqui, está escrito.

E hoje algumas pessoas se encontraram no Rio de Janeiro para discutir o que aconteceu com aquela mulher do mito, e da peça, e das peças, das diferentes versões de Medeia, Eurípedes, Sêneca, e a psicanalista, a aluna girardiana, a professora, o médico que apareceu naquele dia porque estava procurando o sentido da vida e percebeu que escolheu a profissão por causa do pai, as senhoras inteligentíssimas que não são mais psicanalistas graças a Deus, a psicanalista que virou artista plástica, a moça atenta que também fez letras, e a mulher que trouxe o filho.

Estamos ali discutindo o que aconteceu com Medéia.

E depois eu chego em casa e o meu Jasón me escreve, me escreve com a clareza de quem quer apenas se livrar de uma bagagem pesada, que não está querendo nada comigo nem vai querer nada comigo nos próximos séculos.

Eu não assassinei meus filhos, não fiz nenhum feitiço, eu só escrevi e me debati contra essa despedida que foi tão suave.

Não sou uma mulher grega, não sou uma mulher romana, posso casar, posso me separar, posso votar.

Mas por um minuto eu e Medeia fomos a mesma mulher.



Não sei se eu escrevo sobre os olhos do padre ou sobre o Bernardo



Os olhos do padre estão cheios de coragem e de uma certa felicidade cristã, a felicidade das pessoas que pararam de condenar os outros.

A felicidade das pessoas que estão recebendo a graça.

O padre falou sobre pessoas que não comem a hóstia e que estão cada vez mais cheias de graça. E isso é uma das coisas que acontecem na igreja e ninguém fala disso, se é para falar da igreja as pessoas falam de inquisição e proibição de camisinha e de aborto, mas ninguém fala dessas coisas, da alegria nos olhos do padre, ou da graça que as pessoas vão recebendo ao longo dos anos.

Uma vez um amigo meu parou a reunião da igreja e foi cumprimentar um amigo. Depois ele voltou para a reunião e começou a chorar.

Ele disse que esse amigo tinha perdido o pai recentemente e que ele estava impressionantemente bem, inteiro, sabe, resolvendo as coisas da vida sem se abalar tanto quanto se esperaria.

Esse tipo de coisa que eles chamam de graça. Quando a viúva do morto está mais forte do que os parentes do morto e pode consolar todo mundo.

Quando uma velhinha analfabeta vira uma santa.

Essas coisas que eles chamam de Mistério e que ninguém conta para quem está fora da igreja. Olha, os padres têm uma alegria estranha, um entusiasmo sem fim, e eles não são chatos, eles são pessoas simples que te olham no olho, mas o olho deles está sorrindo.

Não sei se escrevo sobre os olhos do padre ou sobre o Bernardo.

Bernardo, eu desejo para nós esse tipo de graça. Que a gente fique cada vez mais cheio de alegria e que as pessoas percebam isso e comecem a amolecer junto e a fazer bondade para nós por contágio.

A história que o cristianismo nos impede de contar




Existe uma história da carochinha que todo mundo gosta de contar. Ela é a seguinte: "Eu sou muito legal, Fulano é muito idiota e fez tal coisa comigo."

É essa a história que o cristianismo nos impede de contar. Depois de entender que somos todos pecadores e de rezar "Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" muito pouco tempo de reflexão é necessário para você começar a perceber que essa é a história que você conta sobre si para os outros todos os dias.

O problema de contar essa história é que você não é um poço de inocência e o outro a fonte do pecado, então logo a sua consciência vai soprar alguma coisa no seu ouvido como "não foi bem assim."

E daí vem a culpa. E esse é o segundo problema, não viver contando sempre essa mesma história e sentindo culpa.

Mas às vezes você tem razão e a pessoa foi mesmo bem filha da puta. Aí, o cristianismo indica perdoar.

Então de novo você tem poucas saídas além de tirar muito sarro da pessoa e dar risada da situação e depois parar de contar a história de como você é bonzinho e o outro é mal e perdoar essa pessoa.

Nível 3 de cristianismo básico é que você vai ter que perdoar essa pessoa de novo, porque claro que ela não vai fazer uma cagada com você só uma vez. E aí, você vai ter que repassar na sua cabeça que 1) você não é o poço da inocência 2) a pessoa não é a fonte de todo o mal (com exceção pra psicopatas e outros filhos da puta mais sofisticados 3) você vai lembrar que não basta perdoar só uma vez, tem que perdoar pra caralho. Perdoar não só sete vezes mas setenta vezes sete ou algo assim.

Aí você começa a entrar na viagem mesmo. Se confrontar com a obrigação de perdoar as pessoas que te fazem mal.

E daí começam várias conversas que eu queria ter com o padre mas não tenho porque eu não sou o Clint Eastwood, não é sempre que eu vou na igreja e quando eu chego lá só quero abraçar o padre e chorar então eu também nunca puxo assunto.

Mas o padre sempre sabe. Ele sempre sabe que eu estou lá chorando por dentro e fazendo cara de paisagem.

Belas vinganças


O homem mais machista que eu conheço casou e teve uma filha.

Deus é sempre muito melhor nas vinganças do que eu.

Minha amiga que leva o cristianismo a sério






Esses dias eu hospedei uma amiga aqui em casa. Não uma amiga qualquer, mas uma daquelas pessoas que você conhece e pensa, bem em segredo com o seu coração, "Deus gosta de mim."

Acho que eu precisaria de muito cuidado para escrever sobre esses cinco dias mas o tempo está passando e eu tenho muita coisa para fazer e ao mesmo tempo eu não quero deixar de escrever sobre o que aprendi nesses dias. Então, sai medo, sai auto-crítica, vem verdade.

Eu não sou uma pessoa do interior, eu sou da capital e isso quer dizer que eu conheci muitas pessoas que queriam ser alguém, como eu também queria. O problema é que esse "ser alguém" quer dizer que as pessoas querem ser famosas e conhecidas por feitos que os outros admiram. Até aí, tudo muito humano demasiado humano.

Mas no meio da vida rumo ao estrelato você encontra muitas tentações e é muito difícil crescer sem matar um pouco da sua espontaneidade, e se dar bem sem aprender um pouco da malícia da vida, da malandragem, e no meio do processo, contrair pequenas bactérias como altos níveis de vaidade e um pouco de maldade e egoísmo.

Até aí também não estou falando de grandes temores. A questão é que essa amiga, que veio de longe, e do interior, chegou aqui na capital sem nenhuma vacina contra toda essa merda, ela chegou bem mais inocente que a Madame Bovary.

Ela chegou aqui conservando sua forma infantil, seu espirito de aventura, um costume com a bondade que vem do Espírito Santo.

Ela chegou aqui com uma mochila cheia de filtros de sonho e pedras e incensos, magias de gente velha do interior, educação mais fina do que a parisiense e doçura mais estúpida do que açúcar refinado.

Ela chegou aqui e se apaixonou e o coração dela foi trincando em micro pedacinhos de tristeza, levando choques de desprezo, tomando baques imensos de mentiras e falsidades e a inteligência dela foi obrigada a conhecer a malícia nova, a esperteza nova, a maldade nova e a manipulação nova daquelas outras pessoas que nasceram na cidade e que não tem muito compromisso com consciência moral e amor às mulheres.

Mas aí é que vem a parte mais louca. Ela conseguiu perdoar tudo e não se perverter. Ela continua pontual, continua só indo na casa das pessoas se for convidada, continua trazendo presentes, dividindo a conta, pagando mais para mim se eu tiver com menos dinheiro, querendo lavar os pratos depois do almoço, me comprando uma pulseira se ganhar um brinco.

Ela continua com uma memória furiosa e com uma atitude vigilante, ela continua sem pegar todo esse universo de pequenas corrupções morais que a cidade promove e renova todas as madrugadas.

E mais. Ela não prega sobre nada. Ela nunca fala de cristianismo. E quando ela fala de Jesus, ela diz que ele é como um brother. "Jesus e eu temos uma parceria, ó, ce sabe".

Nenhuma das personagens que eu encontrei nos livros é tão bonita quanto ela. Às vezes eu encontro palavras para dizer que ela é muito bonita, não só no corpo, não só no espírito, ela é toda bonita, toda frágil e forte, ela se parte em pedaços e volta à vida, e não deixa a alegria no abismo. E quando eu falo essas coisas, ela chora.

Às vezes ela me lembra o Peter Pan ou uma Amazona, às vezes ela me lembra um animal silvestre ou uma sacerdotisa, às vezes ela me lembra aquelas mulheres velhas que conhecem os segredos das plantas, ou aqueles moleques do interior que sabem montar arapuca.

Sentada aqui no quarto, almoçando macarrão, ela arregala os olhos e comenta os livros que eu tenho na estante, e eu explico sobre o que fala cada um deles. São livros sobre teoria cristã com títulos assustadores e maravilhosos inspirados em trechos da Bíblia.

Mas o que eles estão dizendo ela está vivendo faz tempo. E ela me ensina muito mais do que eles.

Meu coração não aguenta esses segredos e é por isso que eu escrevo.

Não posso ser a única testemunha de uma vida assim.




Os três homens na minha vida hoje



"Três homens em conflito"
Ilustração Marytinwe
Aqui

Há três homens na minha vida hoje. Os três são escritores.

Nenhum deles me ama, mas estão todos gravitando ao meu redor, tentando adivinhar a sombra que os astros desenharam sobre o meu nome quando eu nasci. Tentando adivinhar a essência do meu perfume, ou se é o cheiro do desodorante a doçura de pêssego, laranja, mel ou abacaxi, as flores do campo em Israel ou na Espanha.

Marco

O primeiro é um homem de confiança e um escritor quieto que sabe escolher palavras bonitas e retira inspiração de pequenas surpresas que ele escuta e percebe da janela do quarto, entre uma viagem e outra, sentado na praça olhando as crianças. Ele é com certeza um homem para casar, o porto seguro, a força em todos os sentidos. Ele sabe que a delicadeza é a firmeza de um homem tanto quanto seu braço ou sua inteligência.

Seu corpo é firme, bem firme mesmo, não é musculoso mas não é flácido, ele é todo proporcional, sem gordura nenhuma, um corpo discreto, não muito grande, não muito pequeno. Ele tem o cabelo cortado rente à cabeça e um aspecto limpo, o tipo de cara que nunca vai vestir uma cueca velha ou uma meia rasgada, e que evita palavrão.

Dos três, ele é o único que inventa outros nomes para me chamar, às vezes ele me chama de anjo, às vezes de querida, é sempre alguma coisa que não tem nada a ver com cidade grande, vaidade, pecado ou sexo. Ele tem jeito de homem do interior, o tipo de cara que nunca vai se esquecer da própria mãe e que não vai deixar de acreditar em Deus.

Tenho medo de não ser suficientemente inteligente e não enxergar o quanto Marco é perfeito. Perfeito, doce e livre de vulgaridade. Engraçado que ele sabe que ele não tem o brilho dos outro escritores, mas ele não quer abrir mão de como ele é, não quer vender a alma para ficar mais interessante para uma mulher. Ele prefere a simplicidade em sua forma furiosa e eu gosto disso. Eu sei que ele ama Drummond.


Henrique


Henrique é o príncipe. Henrique é o prêmio, é o tipo de cara que pode abrir uma garrafa de vinho branco e usar uma camisa de linho em qualquer lugar e que se estiver de bermuda e chinelo na Vila Isabel, vai conservar uma elegância violenta no rosto, que poderia ser confundida com empáfia porque causa uma certa raiva misturada com inveja.

Henrique é o dono do iate, mas é também o cara que vai se demorar um pouco mais olhando para o meu rosto e para a curva do ombro de uma mulher quando estiver tomando um café na mesa de fora.

Não sei por onde passam suas maiores alegrias nem o que ele esconde no porão, mas ele me prende, reaparece nos meus sonhos, e me dá a sofisticada alegria de invejar seus livros, a construção imprevista de uma frase, um tom de voz macio que me dá vontade de acordar com ele no sábado.

Maldito Henrique com seus poemas ingleses e sua furiosa recusa em ser medíocre. Henrique não repara no estilo de uma casa porque disso pode destacar alguma poesia do cotidiano ou alguma reflexão sobre a história do país, não é o estilo da casa que vai dizer um pouco sobre o Brasil ou sobre a fugacidade do tempo e o absurdo da vida.

Henrique olha para aquela casa e enxerga a decadência da alma na escolha infeliz de colunas gregas que não deveriam estar ali e se revolta, sente um comichão de ira atrás da orelha, quer bater naquele arquiteto, quer destruir aquele erro tático, mas estará pronto para contemplar o desenho das pernas da dona da casa enquanto ela desce as escadas, e as curvas que o vestido estampado estão fazendo quando as flores se alongam no vai e vem dos joelhos.

Por muito tempo Henrique esteve rondando o meu coração, fumando um charuto no quintal do condomínio onde moram os melhores escritores que eu conheci. Mas eu tenho medo dele. Tenho medo do quarto com demônios que todo escritor guarda muito bem guardado. Pelos demônios dos outros nós mulheres também precisamos sentir uma extrema simpatia.


Bernardo

E Bernardo é o escritor que não está apaixonado por mim. E que não vai se apaixonar por mim.

A vida é simples e dolorida assim também. Sem ficção.



Tuesday, March 07, 2017

Primeira carta com dor na garganta



Ilustração: Mariana Cagnin


Se a dor saísse. Se eu pudesse voltar por uma porta e ser que eu fui. Uma pessoa virgem dessa dor. Sem a consciência de que eu era muito feliz. Sem saber que eu estava viva e sentindo a vida chegar e correr por todos os meus poros.

Ou se eu pudesse abrir as mãos e te mostrar os cacos de vidro e os retalhos de pedras pontiagudas que eu levo no bolso.

E tudo virasse um punhado de castanhas para a gente comer ou bolas de sabão para o vento soprar na praia de copacabana.

Esta é minha primeira carta com dor na garganta. Ninguém merece isso, esse tom ginasial, esse punhado de lamúrias doces cifradas, que não são suficientemente descritas para causar algum efeito real nem suficientemente escondidas para causar alguma sensação melhor.

Esta é a minha primeira carta com dor na garganta.

Não ouse escrever sobre mim do jeito que você escreveu sobre suas outras mulheres, com essa violência estranha e atenuada que eu não conheço.

Queria pelo menos que você preservasse a memória de tudo o que você não sabe sobre mim, que pelo menos você escrevesse sobre esse lado que só você viu sem que pareça um cientista do século dezenove dissecando um sapo ou a minha psique.

Porque agora que eu estou escrevendo sobre você eu sei que eu preciso derramar as palavras mais delicadas, mesmo que eu não saiba mais o que é delicadeza.

Você me inspira te dizer que eu te amo, me inspira esmurrar os seus ombros até a dor sair, me inspira te acordar beijando a sua cara toda.

Você me inspira quebrar todas as distâncias do corpo, porque o namoro é essa disposição informal para encontrar todos os encaixes.

Deitados na cama, ou de mãos dadas, ou beijando, ou sentados um perto do outro.

Quando você está perto do meu corpo e você encontra esse jeito de passar a mão sobre o meu joelho e ficar alisando a perna, quando você diz que gostou dos meus óculos, quando você para antes de abrir a porta para se despedir de mim com um beijo e você me dá vários beijos.

Esse tipo de coisa que poderia não ter acontecido mas aconteceu fica gravado na pele dos meu dias depois.

Deixa o verão menos pesado.



Antes da confirmação



Ilustração de Mariana Cagnin

Daqui


Esses dias resolvi falar sobre sexo com o pessoal da igreja. Sim. O desconforto dos orientadores só não foi maior do que o interesse do povo.

Sexo. O grande tabu. Descobri que a igreja não fala só sobre sexo para procriação. felizmente, tem outro tipo de sexo disponível, o "sexo para a união do casal."

Tudo isso depois do casamento. Se fizer antes, tem que confessar.

Há algo de incômodo em chegar no ouvido de um padre e contar que você transou.

E não posso negar que existe ainda a dificuldade de precisar sentir culpa sincera por ter transado.

Bom, culpa, eu tenho por cada coisa, culpa a gente arruma. Mas ainda assim. É incômodo. Eu vou ter que segurar o riso? Chegar para o padre e dizer, padre, "eu transei".

Essas coisas... essa necessidade de ir a fundo nas coisas e ao mesmo tempo não sentir o significado, isso acontece em vários momentos.

No último domingo eu fui à missa. E felizmente foi uma missa boa, mesmo que eu tenha perdido a parte que o padre fala o que ele quiser, que eu sempre acho a melhor parte.

O milagre foi que escolheram músicas bonitas e não aquelas músicas chatas e bregas com harmonias previsíveis e horrorosas que me dão vontade de gritar. Não, dessa vez escolheram bem as músicas. Isso faz toda a diferença. Impressionante.

E além disso teve uma homenagem a um coroinha, eu acho. É um cara que realmente é muito feio fisicamente, e ao mesmo tempo ele inspira confiança e carinho.

As pessoas da igreja vão ficando assim, com um certo ar de heroicas e carinhosas.

O padre novo olhou pra mim.

Ele sabe alguma coisa sobre mim. Mas eu não sei o que é.

E isso me faz pensar em todas as situações em que as pessoas olharam pra mim, na rua, na escola, no cursinho, no metrô.

As pessoas sempre me olham.

Até hoje eu não sei a explicação total. Sei que eu sou do tipo de pessoa que salta aos olhos na multidão.

Eu só fui entender isso quando comecei a dar aulas e a olhar para os meus alunos adolescentes.

Aí eu entendi como vários deles eram como eu, indisfarçáveis.